João Carlos Mansur e a Reag: o empresário no centro de duas operações da PF
João Carlos Mansur, da Reag, alvo de operações da PF

A decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos, nesta semana, trouxe definitivamente para o centro das atenções a figura do empresário João Carlos Mansur. Ele se encontra no epicentro de duas das investigações mais relevantes sobre o uso de estruturas financeiras no Brasil.

O perfil discreto e a ascensão da gestora

João Carlos Mansur fundou a Reag Investimentos em 2012, apresentando-se ao mercado como um especialista técnico e discreto. Com formação em ciências contábeis e MBA pela Fundação Getulio Vargas (FGV), ele focou em veículos de investimento complexos, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Fundos de Investimento em Participações (FIPs).

Essa complexidade se tornou seu diferencial. A gestora cresceu rapidamente, ganhou escala e passou a administrar uma vasta rede de fundos. Esses mesmos fundos estão agora sob o escrutínio da Polícia Federal, que investiga suspeitas de fraudes em operações estruturadas que envolvem o Banco Master.

As operações que colocaram a Reag no alvo

Para os investigadores, a Reag não é um agente periférico, mas um elo relevante na engrenagem financeira sob análise. As suspeitas recaem sobre operações encadeadas, de baixa transparência, com fragilidades de governança e rentabilidades consideradas incompatíveis com o mercado.

Em um caso citado nos autos, o retorno declarado por um fundo ultrapassou a casa dos milhões por cento em um único ano. Este número disparou alertas máximos nos órgãos de controle.

Além do caso Banco Master, a Reag também foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada no ano passado. Esta operação investiga um amplo esquema de lavagem de dinheiro ligado ao crime organizado, com ramificações nos setores de combustíveis e financeiro. A gestora é suspeita de administrar fundos usados para ocultar e movimentar recursos de origem ilícita.

O esvaziamento institucional e a crise final

Em setembro, após ser alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, Mansur anunciou a venda do controle da Reag e deixou a presidência do conselho. Ele iniciou um processo de desligamento de cargos estratégicos, movimento visto no mercado como uma tentativa de conter o desgaste reputacional.

No entanto, a decisão do Banco Central pela liquidação extrajudicial mostra que a crise ultrapassou a questão da imagem e atingiu o núcleo operacional do negócio.

A influência além do mercado financeiro

A capacidade de Mansur de transitar por ambientes distintos sempre foi uma de suas marcas. Fora do sistema financeiro, ele construiu uma influência incomum no futebol brasileiro, setor conhecido por estruturas frágeis de governança.

Ele se tornou conselheiro do Palmeiras, participou da modelagem financeira da arena do Corinthians e atuou como articulador de investimentos em clubes tradicionais como Juventus e Portuguesa. Seu perfil técnico e familiaridade com estruturas complexas lhe deram protagonismo, apresentando-se como a promessa de profissionalização para um ambiente acostumado ao improviso.

Assim como nos fundos que administrava, Mansur oferecia soluções sofisticadas para problemas crônicos do futebol – soluções que, muitas vezes, se mostravam difíceis de compreender, auditar ou supervisionar fora de círculos especializados.