Fraude do Banco Master: Como fundos opacos e imóveis superfaturados desviaram R$ 50 bilhões
Fraude do Banco Master: R$ 50 bi em fundos opacos e imóveis

Fraude do Banco Master: O esquema que desviou mais de R$ 50 bilhões

O caso do Banco Master segue um roteiro clássico de fraudes financeiras no Brasil, onde o controlador utiliza estruturas complexas e pouco transparentes para desviar recursos em larga escala. Segundo especialistas do mercado financeiro consultados pela reportagem, a combinação de crédito dirigido, fundos "de passagem" e imóveis superfaturados formou o tripé que permitiu o desvio de mais de R$ 50 bilhões.

Os três eixos da engenharia fraudulenta

O esquema operava de forma sistêmica, envolvendo múltiplas camadas de transações que dificultavam o rastreamento dos recursos. Em linhas gerais, o banco liberava grandes empréstimos para empresas de fachada – organizações sem atividade real ou capacidade efetiva de pagamento. Essas empresas, em vez de aplicar o dinheiro em negócios produtivos, direcionavam os recursos para fundos de investimento com estruturas frágeis e pouca transparência.

Esses fundos, por sua vez, adquiriam ativos ligados ao próprio grupo de controle, especialmente imóveis, por valores significativamente acima do mercado. É neste ponto que o superfaturamento se tornava o motor principal da fraude. Um imóvel originalmente comprado por R$ 1 milhão poderia ser revendido por R$ 100 milhões a um fundo "independente", que havia sido justamente capitalizado com o dinheiro emprestado pelo banco às empresas de fachada.

A complexidade da recuperação dos recursos

A avaliação predominante no mercado financeiro indica que boa parte dos mais de R$ 50 bilhões associados ao rombo não está mais em ativos facilmente rastreáveis. A combinação de fundos usados como engrenagem interna, imóveis superfaturados como lastro fictício e estruturas de investimento com pouca transparência explica por que a recuperação integral do dinheiro tende a ser lenta, parcial e tecnicamente complexa.

Mesmo com as liquidações decretadas pelo Banco Central do Master e outras instituições relacionadas, como Will Bank e Banco Pleno (que já pertenceu ao mesmo conglomerado), além das garantias e ações judiciais em curso, o processo de recuperação enfrenta obstáculos significativos. Para o olhar leigo, as operações pareciam sofisticadas – com fundos estruturados, ativos "diferenciados" e estratégias complexas. Porém, para a análise pericial, configurava-se o padrão clássico de uso de fundos como tubos de circulação e lavagem de recursos.

O destino possível dos recursos desviados

A Polícia Federal investiga possíveis investimentos de Daniel Vorcaro em obras de arte e imóveis nos Estados Unidos. Embora sejam ativos com valor econômico, são considerados de longo prazo e sem liquidez imediata. Há ainda a possibilidade de que parte significativa dos recursos esteja em investimentos em offshores – fora do país.

Um CFO de grande banco consultado pela reportagem oferece uma perspectiva preocupante: "Hoje em dia, a melhor forma de esconder dinheiro em volumes dessa ordem é em criptomoeda, então seria o destino lógico". Esta possibilidade adiciona mais uma camada de complexidade às investigações e aos esforços de recuperação dos recursos.

Ao final, não se trata de um "truque único", mas de um método estruturado: usar o poder de emprestar dinheiro do banco para criar operações aparentemente legítimas que, na realidade, serviam para enriquecer o controlador, inflar artificialmente o balanço da instituição financeira e transferir o prejuízo para investidores, para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e para o próprio sistema financeiro nacional.