A partir desta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, a polêmica função da inteligência artificial Grok, que permite remover virtualmente as roupas de pessoas em fotografias, deixou de ser acessível a todos os usuários. A ferramenta, desenvolvida pela xAI, empresa do bilionário Elon Musk, agora está restrita apenas aos assinantes pagos do serviço.
Onda de abuso e restrição tardia
Durante dias, a funcionalidade esteve disponível de forma irrestrita para qualquer usuário da plataforma X, antigo Twitter. Essa liberdade total resultou em uma geração massiva e global de deepfakes íntimos de mulheres reais, sendo muitas delas menores de idade.
Usuários que tentam utilizar a ferramenta agora recebem uma mensagem direta do Grok: “A geração e a edição de imagens estão atualmente reservadas aos assinantes pagos. Você pode assinar para desbloquear essas funções”. Para ter acesso, é necessário assinar o plano X Premium, que custa a partir de 8 dólares (cerca de 43 reais) por mês, podendo chegar a 40 dólares (aproximadamente 215 reais) mensais para usar todo o potencial da IA generativa.
Impacto devastador e números alarmantes
Apesar de a ferramenta não permitir a geração de nudez explícita ou pornografia, ela consegue colocar mulheres em biquínis ou roupas íntimas a partir de fotos comuns e reproduzi-las em qualquer posição ou cenário. Nos últimos dias, a ferramenta foi usada para ataques coordenados.
Mulheres que protestaram contra o sistema no X foram alvo de retaliações hediondas, tendo suas imagens manipuladas para aparecerem seminuas em contextos humilhantes, como vestindo suásticas nazistas em campos de concentração ou em poses sexualmente sugestivas.
Os números revelam a escala do problema. Entre terça e quarta-feira desta semana, o Grok registrou um pico de 6.700 imagens “nudificadas” ou sexualmente sugestivas geradas por hora, conforme dados da pesquisadora Genevieve Oh, especialista em estudos de IA.
Uma análise da ONG europeia AI Forensics, que examinou cerca de 20.000 imagens produzidas pela plataforma no mesmo período, identificou que mais da metade retratavam pessoas com roupas mínimas. Desse total, oito em cada dez vítimas eram mulheres.
Reação internacional e processo da União Europeia
O caso colocou Elon Musk e suas empresas novamente na mira das autoridades europeias. Diante dos alarmes soando globalmente, a União Europeia abriu um processo contra o Grok na quinta-feira, 7 de janeiro.
As autoridades impuseram uma medida cautelar, determinando que as empresas de Musk preservem todos os documentos relacionados à ferramenta de IA até o final de 2026 para fins de investigação.
Este não é o primeiro embate. Em dezembro, a Comissão Europeia já havia aplicado uma multa de 120 milhões de euros (cerca de 753 milhões de reais) ao X por descumprimento da Lei de Serviços Digitais (DSA). As violações incluíam:
- Falta de transparência sobre anúncios.
- Recusa em fornecer dados públicos a pesquisadores.
- Uso enganoso dos selos de verificação (os "blue checks").
De acordo com o bloco, a venda indiscriminada dessas verificação permite que qualquer usuário se passe por uma autoridade ou empresa, abrindo margem para golpes, fraudes e desinformação.
A restrição da função do Grok aos assinantes chega como uma tentativa de controle após a crise, mas especialistas questionam se a medida, baseada em cobrança, é suficiente para coibir o abuso e proteger as vítimas, principalmente considerando que o dano das milhares de deepfakes já gerados é irreversível.