Polícia Civil indicia 40 homens por envolvimento em Farra do Boi em Santa Catarina
40 homens indiciados por Farra do Boi em Santa Catarina

Polícia Civil indicia 40 homens por envolvimento em Farra do Boi em Santa Catarina

A Polícia Civil de Santa Catarina indiciou 40 homens por participação em eventos relacionados à Farra do Boi no município de Governador Celso Ramos, localizado no Litoral Norte do estado. A ação policial, que durou mais de um ano de investigações, resultou na apuração de 22 ocorrências do crime, algumas descobertas durante o processo investigativo.

Crimes e envolvidos

Os indiciados poderão responder na Justiça pelos crimes de maus-tratos a animais e associação criminosa. Entre os investigados, foram identificados participantes diretos, organizadores, financiadores, transportadores e vendedores dos animais utilizados na prática. A Polícia Civil revelou que, inclusive, um vereador do município está envolvido nos casos, embora os nomes dos indiciados não tenham sido divulgados publicamente.

Prática cultural e investigação

A Farra do Boi é uma prática de raízes culturais trazida por imigrantes açorianos ao litoral catarinense, que associa o boi à figura do mal e ocorre principalmente durante o período da Quaresma, os 40 dias que antecedem a Páscoa no calendário cristão. O ritual consiste em soltar um boi em local ermo e cercado de pessoas, que provocam o animal até que ele entre em exaustão.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Durante as investigações, a delegacia descobriu a existência de grupos organizados que arrecadavam valores através de "vaquinhas" para financiar a compra de animais, além de pagar advogados e multas administrativas aplicadas aos participantes. "A configuração de associação criminosa foi reforçada pela repetição de nomes na articulação de aquisição e transporte do animal, com rateio de valores até mesmo de prejuízos, demonstrando uma divisão de tarefas estruturada", afirmou a Polícia Civil em nota oficial.

Contexto histórico e cultural

Conforme especialistas, a figura do boi ou touro está presente em diversas culturas ao redor do mundo. Em Santa Catarina, a prática foi comum no passado, especialmente nas comunidades litorâneas. O historiador Francisco do Vale Pereira explica que a manifestação não possui relação com a figura de Judas, mas sim com a representação simbólica do demônio ou do mal.

Já o pesquisador Rodrigo Rosa destaca que a prática é antiga na região e está ligada às tradições tauromáticas trazidas pelos colonizadores açorianos no século XVIII. Segundo ele, o evento ocorre próximo à Páscoa por se relacionar com o término da proibição católica de consumir carne durante a Quaresma. "As comunidades criavam esse boi para poder comemorar a nova data, a queda da proibição da Quaresma, e aí sim poder comer o boi", explica Rosa.

Legislação e operações

A prática da Farra do Boi é considerada crime conforme lei nacional desde 1998. Em Santa Catarina, a lei estadual número 17.902/2020 estabelece punições específicas para os participantes:

  • Multa de R$ 20 mil para pessoas que promoverem ou divulgarem a farra do boi
  • Multa de R$ 10 mil para participantes, comerciantes dos animais, proprietários dos veículos de transporte ou dono do imóvel onde ocorrer a prática
  • Em ambos os casos, o valor é dobrado em caso de reincidência

No final de fevereiro, o governo de Santa Catarina lançou a Operação Quaresma na tentativa de combater a prática ilegal. A informação sobre os indiciamentos foi divulgada pela Polícia Civil na segunda-feira, 16 de setembro, marcando um avanço significativo no combate a esta forma de maus-tratos animais no estado.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar