Os orelhões, aqueles icônicos telefones públicos que por décadas pontilharam ruas e praças do Brasil, estão desaparecendo da paisagem urbana. Enquanto ganham destaque no cinema nacional, sendo quase personagens centrais no filme "O Agente Secreto", vencedor do Globo de Ouro 2026, na vida real eles enfrentam um destino diferente: a retirada definitiva após o fim das concessões de telefonia fixa.
Do cinema às ruas: um símbolo em transformação
No longa-metragem "O Agente Secreto", ambientado na década de 1970, o orelhão assume um papel narrativo crucial. Em várias cenas, o personagem Marcelo, vivido pelo ator Wagner Moura, utiliza o telefone público para se comunicar, e essa imagem se tornou uma das marcas registradas da produção, inclusive na divulgação internacional. A presença do equipamento no filme contribui para reconstruir a identidade urbana brasileira da época retratada, quando o acesso ao telefone era limitado e seu uso fazia parte do cotidiano da população.
O cenário atual: retirada gradual e números expressivos
Fora das telas, a realidade é bem distinta. No início deste mês, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deu início ao processo de remoção definitiva dos telefones públicos em todo o território nacional. Essa medida ocorre após o encerramento das concessões do serviço de telefonia fixa, que vinha registrando uma queda constante de utilização pela população, impulsionada pela massificação dos celulares.
De acordo com dados da Anatel, nas principais cidades do noroeste paulista ainda existem 787 orelhões ativos. A maior concentração está em São José do Rio Preto (SP), com 377 aparelhos, seguida por Araçatuba (SP), com 114 unidades. A retirada será realizada de forma gradual, acompanhando uma tendência observada em todo o país.
Fim das obrigações legais e impacto nas operadoras
Com o término dos contratos de concessão, empresas como Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica deixam de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura dos telefones públicos. Isso significa que a responsabilidade pela remoção e pelo destino desses equipamentos históricos passa a ser coordenada pela Anatel, em um processo que marca o fim de uma era nas telecomunicações brasileiras.
A história por trás do icônico design
Criado para democratizar o acesso à comunicação, o orelhão foi muito mais do que um simples serviço público: tornou-se ponto de encontro, abrigo improvisado contra a chuva e testemunha de incontáveis histórias pessoais. Foi ali, ao ouvir o clássico "chamada a cobrar", que muita gente esperava ansiosamente até cair a ficha – literalmente – para completar a ligação.
O orelhão surgiu em 1971, fruto do talento da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Inicialmente, recebeu apelidos como "tulipa" e "capacete de astronauta", até que o termo "orelhão" se consolidou. Embora cabines telefônicas existissem em outros países, a criação de Chu Ming se tornou icônica pelo seu design inovador, em formato de ovo, que foi reproduzido em nações como Peru, Angola, Moçambique e China.
Além da estética diferenciada, o formato tinha uma justificativa funcional importante: a qualidade acústica. O som entrava na cabine e era projetado para fora, reduzindo o ruído durante as ligações e protegendo o usuário do barulho externo. Segundo registros históricos, o primeiro orelhão foi instalado no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1972, chegando a São Paulo apenas cinco dias depois.
Um legado que permanece na memória coletiva
Apesar da remoção física, o orelhão deixa um legado indelével na cultura e na memória urbana brasileira. Sua presença em filmes como "O Agente Secreto" garante que novas gerações possam conhecer esse símbolo de uma época em que a comunicação era um evento mais demorado e, muitas vezes, compartilhado. Enquanto as ruas se adaptam à era digital, a história dos orelhões continua a ecoar, seja através da sétima arte ou das lembranças de quem um dia dependeu deles para se conectar com o mundo.