Araras-canindés retornam ao Rio após extinção com soltura histórica no Parque da Tijuca
Araras-canindés voltam ao Rio com soltura histórica na Tijuca

Araras-canindés retornam ao céu do Rio de Janeiro após décadas de extinção

O céu da cidade do Rio de Janeiro ganhou um colorido especial com a primeira soltura de araras-canindés na capital fluminense, onde a espécie era considerada extinta. A iniciativa, realizada no início de janeiro, marcou um momento histórico para a conservação ambiental no estado.

Reintrodução de três fêmeas no Parque Nacional da Tijuca

A organização da sociedade civil Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), libertou três fêmeas da espécie no Parque Nacional da Tijuca. As aves, batizadas de Fernanda, Suely e Fátima, homenageiam personagens da atriz Fernanda Torres.

As araras vieram do Parque Três Pescadores em Aparecida, São Paulo, onde receberam cuidados no Refúgio das Aves. Um quarto exemplar, o macho Selton, não pôde ser solto devido a uma infecção pulmonar que enfraqueceu suas penas.

Processo de aclimatação e treinamento rigoroso

As aves chegaram ao parque em junho de 2025 e passaram por um período de aclimatação em um recinto de 20 metros de comprimento. Durante esse tempo, aprenderam a voar e a se alimentar com frutas nativas, como jabuticabas.

A bióloga Lara Renzeti, coordenadora do projeto, explicou que o treinamento incluiu exercícios diários para fortalecimento muscular. "Quando abrimos a porta, elas conseguiram fazer voos de cinco a dez quilômetros", destacou.

Monitoramento contínuo e participação da população

Após a soltura, as araras continuam sendo monitoradas pela equipe do Refauna. Elas foram equipadas com anilhas, microchips e colares de identificação. A população pode colaborar através do Ciência Cidadã, enviando informações pelo Instagram ou WhatsApp do projeto.

Outra ferramenta utilizada é o aplicativo SISS-Geo, desenvolvido pela Fiocruz, que permite o registro de avistamentos. "A população tem ajudado. Eles avisam mesmo", afirmou Lara.

Educação ambiental e cursos para guias do parque

O Refauna está desenvolvendo cursos de formação para guias do Parque Nacional da Tijuca, com o objetivo de ensinar a conduta responsável durante encontros com os animais. "Não pode alimentar, não pode ficar falando com o bicho", ressaltou Viviane Lasmar, chefe do parque.

Viviane destacou a importância do trabalho do ICMBio na conservação da área. "É sinal de que a floresta está bem para as nossas araras", comemorou.

Meta ambiciosa e contexto de restauração ecológica

A meta do projeto é soltar 50 araras-canindés em cinco anos, com dez indivíduos por ano. Lara Renzeti admitiu que a reintrodução não é uma ciência exata, mas a iniciativa aumenta as chances de reprodução.

Globalmente, a espécie não está ameaçada, mas no Rio de Janeiro ela foi considerada extinta. O Refauna já reintroduziu outras espécies, como cutia-vermelha e anta, combatendo a defaunação na Mata Atlântica.

Dados do IBGE de 2023 revelam que 43% da fauna ameaçada no Brasil é exclusiva desse bioma. "Quando uma espécie é extinta, não é só ela que desaparece; todo um ciclo de vida se desfaz", alerta a organização.