Nova lei na Argentina ameaça geleiras e abastecimento de água
Nova lei argentina ameaça geleiras e água

No último mês, o Congresso argentino aprovou uma lei que permitirá às províncias do país redefinir áreas protegidas próximas a geleiras — as chamadas regiões periglaciais —, ampliando o incentivo à mineração. A pauta é uma área de grande interesse do presidente Javier Milei.

Contexto da nova legislação

Segundo o presidente, a lei vai permitir a exploração mineral em áreas "incorretamente classificadas como glaciares" e proteger as geleiras em si. Anteriormente, a legislação proibia atividades de mineração nessas áreas desde 2010. A ampliação dessa fronteira tem gerado debates intensos na imprensa e na população argentina, com diversas manifestações contrárias à medida.

Impactos ambientais e hídricos

Segundo o Greenpeace, a reforma ameaça o abastecimento de água e pode afetar milhões de argentinos, além de comprometer ecossistemas dependentes das geleiras. Conforme dados divulgados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), as geleiras e calotas polares armazenam por volta de 70% da água doce global, sendo uma fonte hídrica essencial para diversos povos. Além disso, até 2 bilhões de pessoas dependem dessas reservas para água potável, agricultura e energia, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

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Importância das geleiras para a região andina

O glaciologista Jefferson Cardia Simões, pioneiro no estudo dessa área no Brasil e diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ressalta a relevância das geleiras para o país vizinho. "[Os glaciares] são fontes essenciais para regiões secas, como Mendoza. Grande parte da Patagônia e outras áreas dependem do derretimento sazonal das geleiras, especialmente durante a época seca, para o suprimento de água", afirma.

Riscos da mineração em áreas periglaciais

A mineração em áreas próximas eleva o risco de contaminação da água e a probabilidade de ocorrência de avalanches, somando-se ao aumento da temperatura do planeta. O pesquisador explica que a medida aprovada pode gerar efeitos irreversíveis em alguns glaciares, dependendo do tamanho da estrutura, que já sofre com o derretimento global. "A mineração pode poluir as águas de derretimento, gerando efeitos nocivos ao abastecimento hídrico", completa Simões.

Impacto regional versus impacto mundial

Apesar de a atividade mineradora prejudicar os ambientes de forma regional, o problema provavelmente não implicará impactos mundiais em um primeiro momento, ao menos em parâmetros climáticos. Existem mais de 275 mil geleiras em todo o mundo, que cobrem uma área de aproximadamente 700 mil quilômetros quadrados. O gelo em regiões temperadas representa apenas cerca de 1% do gelo total do planeta, conforme aponta Jefferson Simões. Isso significa que, em termos globais, os maiores responsáveis pela regulação do clima são as massas de gelo presentes na Antártica e na Groenlândia.

"O manto de gelo da Antártica é tão importante quanto a Amazônia para o equilíbrio climático e para a formação das águas de fundo dos oceanos", diz o glaciologista. Contudo, mesmo que o problema não gere preocupação em escala mundial de forma imediata, certamente traz muitos problemas para a região andina.

Consequências para os Andes

Nos Andes, o derretimento acelerado das geleiras na Bolívia e no Peru já preocupa especialistas por causa dos impactos no abastecimento hídrico. Jefferson afirma que, em cidades como La Paz, na Bolívia, cerca de 40% da água consumida pela população depende do degelo. Com a redução dessas reservas naturais, aumenta o risco de falta d'água, principalmente nos períodos de seca. O avanço do derretimento também pode intensificar desastres naturais e afetar ecossistemas que dependem diretamente do gelo.

Mesmo quando os impactos parecem locais, em uma visão macro, os ecossistemas estão conectados. Desequilíbrios podem afetar uns aos outros, o que possibilita que sofram consequências em escala mais ampla ao longo do tempo.

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