A mama-cadela, cientificamente conhecida como Brosimum gaudichaudii, é uma fruta pequena e amarelada que desperta memórias afetivas em quem cresceu perto da roça ou de quintais com chão batido. Com um nome curioso e sabor inesquecível, essa espécie pertence à família Moraceae, a mesma do figo e da amora, e é amplamente distribuída pelo Brasil, ocorrendo em praticamente todos os domínios fitogeográficos, exceto no Pampa.
Uma fruta do "Brasil profundo"
No Cerrado, a mama-cadela é especialmente comum e bem adaptada às condições ambientais locais, desenvolvendo-se a pleno sol, tolerando solos pobres em nutrientes e exigindo boa drenagem. Ela aparece geralmente como arbusto ou arvoreta, com porte discreto entre 1,5 e 4 metros de altura, muitas vezes passando despercebida por quem não sabe o que procurar.
Nomes que contam histórias
O nome popular "mama-cadela" ou "mamica-de-cadela" faz referência à aparência enrugada do fruto e à presença de um látex branco que se libera quando colhido. Outros apelidos, como chicletinho-do-cerrado, fruta-de-cera ou algodãozinho, surgem da textura da polpa, que pode ser mascada por bastante tempo sem se dissolver na boca.
A polpa, doce, cremosa e macia, é consumida in natura, mas também pode ser transformada em doce, picolé ou compota, destacando seu potencial gastronômico ainda pouco explorado.
Um "superalimento" escondido no mato
Além do sabor e da tradição, a mama-cadela vem chamando atenção da ciência. Um estudo recente publicado na revista Journal of the Brazilian Chemical Society revelou que o fruto é rico em vitamina C, com uma porção de cerca de 100 gramas fornecendo quase 100% da ingestão diária recomendada.
A mesma pesquisa aponta que a fruta também concentra carotenoides, precursores da vitamina A, alcançando cerca de 80% da recomendação diária. Embora não chegue aos valores extremos da acerola, seu desempenho nutricional impressiona, especialmente por ser uma espécie nativa, silvestre e pouco domesticada.
Planta medicinal e saber tradicional
Muito antes dos estudos laboratoriais, a mama-cadela já era conhecida pela medicina popular, especialmente no tratamento do vitiligo. As raízes, cascas e folhas contêm furanocumarinas, substâncias que deram origem a medicamentos e fitoterápicos.
Pesquisas científicas também indicam propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, cicatrizantes e depurativas, reforçando o valor medicinal da espécie. No entanto, o uso medicinal exige cuidado, pois o uso inadequado pode causar fotossensibilidade e queimaduras.
Por que quase não aparece nas cidades?
Apesar de seu valor, a mama-cadela segue pouco conhecida nos centros urbanos. Segundo o biólogo Marcelo Kuhlmann, isso se deve à desvalorização de saberes tradicionais ao longo da colonização e ao fato de que a maior parte dos alimentos consumidos hoje tem origem estrangeira, introduzidos por alta produtividade.
O resultado é um paradoxo: o país com a maior biodiversidade vegetal do planeta ainda conhece muito pouco das próprias plantas, com muitas pessoas crescendo longe do mato sem imaginar que esses frutos existem.
A fruta pede reconexão
Na natureza, a mama-cadela frutifica aos poucos, nunca em excesso, ensinando a respeitar o tempo das coisas. Enquanto o Cerrado segue ameaçado, frutas como essa continuam resistindo, discretas, esperando ser lembradas na memória de quem sabe reconhecer o sabor do mato.
Dá para plantar em casa?
A boa notícia é que sim. Pelo porte pequeno e crescimento lento, a mama-cadela pode ser cultivada em quintais e áreas residenciais, desde que em sol pleno e solo bem drenado. A espécie investe primeiro no crescimento das raízes, por isso o ideal é o plantio direto no local definitivo, com sementes plantadas logo após a retirada do fruto. A frutificação ocorre principalmente na primavera e no verão.