Óleo do Nordeste viajou 8.500 km e chegou à Flórida, revela pesquisa da UFC
Em agosto de 2019, as primeiras manchas de óleo começaram a surgir no litoral do Nordeste do Brasil, marcando o início de um dos maiores desastres ambientais recentes do país. Até novembro daquele ano, o óleo apareceu em mais de 700 pontos do Nordeste e Sudeste, causando danos extensos ao ecossistema marinho e às comunidades costeiras. Agora, uma pesquisa inovadora da Universidade Federal do Ceará (UFC) revelou que o mesmo óleo chegou, em maio de 2020, até a costa da Flórida, nos Estados Unidos, a mais de 8 mil quilômetros de distância do litoral brasileiro.
Viagem de mais de 200 dias pelo Mar do Caribe
De acordo com o estudo, o óleo que contaminou o Brasil conseguiu atravessar toda a distância pelo Mar do Caribe até os Estados Unidos, em uma jornada de mais de 200 dias. A chave para essa viagem extraordinária foi a adesão do óleo ao lixo marítimo, sobretudo garrafas de plástico ou de vidro, que flutuaram pelas correntes oceânicas. O estudo foi uma colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC com instituições de ensino superior dos Estados Unidos, e os resultados foram publicados em janeiro deste ano na revista científica Environmental Science & Technology.
A investigação começou após uma organização voluntária de proteção ambiental, a Friends of Palm Beach (FOPB), identificar a chegada constante, ao longo de meses, de lixo marítimo coberto pelo óleo escuro na costa da Flórida. Mais tarde, análises químicas compararam esse óleo com o encontrado no Nordeste em 2019, confirmando que era o mesmo material, com uma impressão digital química idêntica.
Resistência do óleo e alerta global
A descoberta dos cientistas chama atenção para a resistência incomum do óleo. Geralmente, devido a fatores naturais como intempéries e degradação, manchas de óleo não viajam mais de 300 quilômetros no mar após o vazamento da sua fonte original. Desta vez, no entanto, ela foi encontrada a cerca de 8.500 quilômetros de distância, um recorde que surpreendeu os pesquisadores. Quando ele fica aderido a alguma superfície, ele cria uma certa resistência, o processo de degradação vai ser mais lento, explicou o professor Rivelino Cavalcante, do Labomar, um dos autores do estudo.
Para a equipe de pesquisa, a descoberta lança um novo alerta para a importância de colaboração entre países no combate ao descarte de lixo nos oceanos. O problema do lixo nos oceanos não é peculiar de cada país costeiro, ele é um problema do mundo todo, afirmou Cavalcante, destacando que um incidente local pode ter repercussões globais.
Contexto do vazamento e investigações
As manchas de óleo que contaminaram o litoral brasileiro começaram a aparecer em agosto de 2019 e foram avistadas frequentemente até novembro, com pequenas quantidades encontradas até março de 2020. Mais de 720 localidades foram atingidas, do Maranhão ao Rio de Janeiro, conforme dados do Ibama. Em 2021, a Polícia Federal concluiu uma investigação apontando um navio de bandeira grega, que teria saído da Venezuela com petróleo cru, como principal suspeito. A empresa operadora nega as acusações, e o caso segue na Justiça brasileira, sem condenações até o momento.
Além do óleo, a pesquisa também relacionou fardos de borracha encontrados na Flórida com os mesmos que apareceram no Nordeste em 2018, suspeitando-se de um navio afundado na Segunda Guerra Mundial. Isso reforça a mensagem sobre a necessidade urgente de melhor gerenciamento de resíduos sólidos, tanto no Brasil quanto internacionalmente.
Implicações e chamado à ação
O estudo da UFC não apenas documenta uma viagem extraordinária de poluição, mas também serve como um lembrete poderoso de como a negligência ambiental pode cruzar fronteiras. A presença de rótulos em português nas garrafas encontradas na Flórida evidenciou a origem brasileira do lixo, conectando diretamente os dois países em um ciclo de contaminação. Modelos matemáticos indicam que o material passou pelo litoral das Guianas e Venezuela, foi levado pelo Mar do Caribe e Golfo do México, e finalmente aportou em Palm Beach, na Flórida.
Essa descoberta ressalta a importância de políticas públicas robustas e cooperação internacional para mitigar a poluição marinha. Enquanto o Brasil lida com as consequências do vazamento, a comunidade global é convidada a refletir sobre práticas sustentáveis e a urgência de proteger nossos oceanos para as futuras gerações.