Expedição 'Travessia das Águas' revela história e importância do Lago de Furnas
Expedição 'Travessia das Águas' explora Lago de Furnas

Expedição 'Travessia das Águas' revela a grandiosidade e os segredos do Lago de Furnas

Quando o governador de Minas Gerais, José Francisco Bias Fortes, protestou contra a construção da Usina Hidrelétrica de Furnas na década de 1950, sua frase "Querem fazer de Minas a caixa d’água do Brasil" ecoou através das gerações. Mais de seis décadas depois, essa expressão ainda define com precisão a relevância do Lago de Furnas e da hidrelétrica para a geração de energia no país. De 30 de março a 10 de abril, o g1 Sul de Minas e a EPTV embarcam na expedição especial "Travessia das Águas", percorrendo o maior reservatório de água doce do Sudeste para explorar sua dimensão, importância econômica e as narrativas de quem depende dessas águas.

O raio-x de Furnas: números que impressionam

Localizada no Rio Grande, em São José da Barra (MG), a Usina de Furnas começou suas obras em 1958 e teve sua primeira unidade em operação em 1963. Com capacidade instalada de 1.216 MW e oito unidades geradoras, a barragem atinge 127 metros de altura. O reservatório cobre uma área de 1.440 km², banhando 34 municípios, a maioria no Sul de Minas. Para se ter uma ideia de sua magnitude, o Lago de Furnas possui mais de dez vezes o volume da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

O professor Carlos Barreira Martinez, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), explica que "Furnas funciona como uma grande bateria hidráulica. Ela guarda água no período chuvoso e libera ao longo do ano. Cada metro cúbico que sai daqui gera energia em várias usinas em sequência". Essa característica estratégica transformou o lago em um pilar do sistema elétrico brasileiro.

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História e sacrifícios: a construção que evitou um apagão

A hidrelétrica surgiu em um Brasil enfrentando uma grave crise energética. Entre 1951 e 1954, Rio de Janeiro e São Paulo sofreram racionamentos severos, com cortes diários de eletricidade que chegavam a sete horas seguidas. O professor Paulo Brandi, da Memória da Eletricidade, relembra que "havia estiagens sucessivas e as concessionárias estrangeiras não conseguiam acompanhar o crescimento da demanda". Foi nesse contexto que o governo de Juscelino Kubitschek investiu em um projeto sem precedentes, tornando Furnas a primeira usina brasileira a ultrapassar 1.000 megawatts de potência instalada.

No entanto, o impacto social foi profundo. A formação do lago afetou cerca de 35 mil pessoas, com aproximadamente um quarto dos moradores tendo que abandonar suas casas e propriedades. Cerca de 5 mil propriedades rurais foram desapropriadas, e distritos inteiros, como São José da Barra, foram completamente inundados. O enchimento do reservatório, em janeiro de 1963, foi descrito como uma operação de guerra, com resgates feitos às pressas usando barcos, balsas e até helicópteros.

De reservatório energético a motor econômico regional

Originalmente planejado apenas para fins energéticos, o Lago de Furnas evoluiu ao longo das décadas para impulsionar atividades como turismo náutico, pesca, piscicultura e lazer, movimentando a economia de dezenas de cidades. "A usina transformou completamente o perfil da região. Além de gerar energia, criou novas possibilidades de desenvolvimento", avalia o professor Martinez.

Essa multiplicidade de usos gerou conflitos, especialmente em relação à variação do nível da água. A chamada cota 762, defendida por políticos e empresários como essencial para o "uso múltiplo" das águas, simboliza a disputa entre o aproveitamento econômico local e as necessidades energéticas nacionais. Especialistas alertam que fixar uma cota específica compromete a eficiência do sistema, pois a variação natural do nível é crucial para o funcionamento da usina como um regulador estratégico.

A importância contínua de Furnas na matriz energética brasileira

Mesmo com o avanço das energias solar e eólica, Furnas mantém um papel central no sistema elétrico. Além de gerar energia principalmente à noite, quando as fontes renováveis intermitentes não estão ativas, a usina contribui para a estabilização de tensão. Francisco Arteiro, diretor de Operação e Manutenção da Axia Energia no Sudeste, ressalta que "Furnas é um dos principais reguladores de água do país. A água estocada aqui vale muito mais porque gera energia em várias usinas a jusante".

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O professor Martinez destaca a longevidade do empreendimento: "A Usina de Furnas continua tendo um papel extremamente importante. É uma central geradora muito bem localizada e com uma estrutura física robusta, projetada para durar cerca de 300 anos. Não se trata de uma usina antiga, mas de uma usina madura, que vem sendo modernizada continuamente".

A expedição 'Travessia das Águas': um mergulho nas histórias do lago

A expedição jornalística, que retorna após quase 20 anos, percorrerá os dois grandes braços que alimentam a Usina de Furnas. Na primeira semana, a equipe partirá do Rio Verde e seguirá pelo Rio Sapucaí, passando por cidades como Três Pontas, Fama, Alfenas e Carmo do Rio Claro. Na segunda semana, o trajeto será pelo Rio Grande, cruzando municípios como Boa Esperança, Cristais, Aguanil, Guapé, Pimenta, Formiga e Capitólio.

Além de reportagens especiais no portal e conteúdos exibidos nos telejornais da EPTV, a expedição contará com um diário de bordo em tempo real, oferecendo aos espectadores um olhar privilegiado sobre os bastidores. A proposta vai além de contar a história do lago; busca destacar as pessoas que vivem, trabalham e tiram seu sustento dessas águas, reforçando a conexão humana com esse gigante hidrelétrico.