Desmatamento na Amazônia já causou aumento de 3°C na temperatura e redução de 25% nas chuvas
Uma pesquisa científica publicada na renomada revista Communications Earth & Environment revelou dados alarmantes sobre os impactos do desmatamento na Floresta Amazônica. O estudo demonstra que regiões com significativa perda de vegetação nativa estão experimentando um aumento médio de 3°C na temperatura durante a estação seca, além de uma redução preocupante de 25% na média de chuvas quando comparadas a áreas mais preservadas.
Como a floresta perde sua capacidade reguladora
A Floresta Amazônica desempenha um papel fundamental na regulação do clima global e regional, atuando como um gigantesco sistema de resfriamento e mantendo o ciclo hidrológico em funcionamento. No entanto, a pesquisa identificou que quando a cobertura florestal cai para menos de 60%, esse equilíbrio delicado começa a se romper de maneira significativa.
Segundo Marcus Silveira, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos autores do estudo, a floresta opera em duas frentes essenciais: absorvendo CO₂ para reduzir o aquecimento global e refrescando o ambiente através do processo de evapotranspiração, no qual a umidade liberada pelas árvores é transportada para a atmosfera.
"As florestas ajudam a regular a chuva até de regiões distantes, pois as correntes de ar transportam essa umidade, que será reciclada novamente como precipitação", explica o especialista.
Regiões mais afetadas e características climáticas alteradas
A análise, baseada em imagens de satélite que compararam áreas da Amazônia com diferentes níveis de cobertura vegetal, identificou que locais altamente desmatados já apresentam características climáticas semelhantes às zonas de transição entre floresta e Cerrado.
As regiões com situações mais críticas incluem:
- Sudeste do Pará
- Norte de Mato Grosso
- Rondônia
Nessas áreas, além do aumento significativo de temperatura, foram registrados 11 dias a menos de chuva ao longo do ano, demonstrando que o impacto não se limita apenas ao volume de água, mas também à sua distribuição temporal.
Secas extremas recentes e riscos ampliados
Os anos de 2023 e 2024 testemunharam secas expressivas na Amazônia, consideradas entre as mais severas da história recente. O pesquisador relata que houve várias ondas de calor com temperaturas muito acima do esperado para a época, estabelecendo recordes não observados há décadas em muitas regiões amazônicas.
"O que os estudos indicam é que as florestas podem levar anos para se recuperarem dos efeitos dessas secas extremas, o que pode gerar outros desequilíbrios ecológicos como a menor capacidade de sequestrar gás carbônico da atmosfera e a perda de biodiversidade", afirma Marcus Silveira.
Durante períodos de seca extrema, o risco para áreas altamente desmatadas se amplia consideravelmente, potencializando a ocorrência de incêndios florestais que prejudicam fauna, flora e a saúde das populações locais.
Reversibilidade do processo e pontos críticos
A existência de um "ponto de não retorno" hidrológico na Amazônia ainda é tema de debate científico. De acordo com o pesquisador, não há evidências suficientes para definir um limite crítico exato de seca ou temperatura que levaria ao colapso irreversível do ciclo da água, já que a floresta responde de maneira diferente conforme a região.
No entanto, o alerta é fundamental: mesmo sem um limite claramente definido, a combinação entre secas extremas mais frequentes, aumento das temperaturas e avanço do desmatamento pode comprometer progressivamente o funcionamento do ciclo da água, reduzindo a capacidade da floresta de se manter e regular o clima.
Caminhos para solução e recuperação
Como medidas prioritárias, o pesquisador aponta:
- Combate ao desmatamento ilegal e proteção das áreas ainda preservadas, incluindo Unidades de Conservação e Terras Indígenas
- Restauração florestal em regiões degradadas, especialmente em propriedades rurais que não cumprem o Código Florestal
- Políticas públicas com incentivos financeiros para quem conserva e restaura, valorizando os serviços ambientais prestados pela floresta
Apesar da queda recente nas taxas, o desmatamento anual na Amazônia ainda é considerado elevado. A restauração florestal pode ajudar a recuperar parte das condições climáticas afetadas, especialmente considerando que a lei exige a preservação de 80% de vegetação nativa na região amazônica.
O estudo reforça a urgência de ações concretas para preservar o que resta da floresta e recuperar áreas degradadas, não apenas pela biodiversidade, mas pela manutenção do equilíbrio climático regional e global.