Mortandade de abelhas em Analândia gera alerta ambiental e preocupa apicultores
A cidade de Analândia, no interior de São Paulo, enfrenta uma situação alarmante com a morte de milhares de abelhas nas últimas semanas. Apicultores e moradores da região estão profundamente preocupados com o desaparecimento de enxames inteiros, levantando fortes suspeitas de que o uso de agrotóxicos em áreas próximas possa ser a causa principal do problema.
Cena de devastação em propriedade familiar
No sítio da família do apicultor Lúcio Fabiano, que mantém a criação de abelhas há impressionantes 17 anos por amor à natureza e sem fins comerciais, a realidade é desoladora. Embaixo das 12 caixas de produção de mel, espalham-se milhares de insetos mortos, configurando uma perda quase total das colmeias.
Lúcio relatou que há aproximadamente 15 dias começou a perceber mudanças drásticas no comportamento dos animais. "A gente ficou surpreso e viu a quantidade de abelha que está morrendo. As abelhas já chegam, caem antes de chegar no caixão. Isso nunca aconteceu", afirmou o apicultor, destacando que, embora já houvesse ocorrido alguma perda no ano anterior, a situação atual é muito mais grave.
Suspeitas recaem sobre agrotóxicos
O comerciante Antonio Tomazini, cunhado de Lúcio e proprietário do sítio onde as abelhas ficam, não tem dúvidas sobre a origem do problema. "Com certeza é veneno que eles pulverizam, talvez algum pomar, alguma coisa. A gente não pode afirmar o quê, mas o que está acontecendo só pode ser [agrotóxico] porque as abelhas vão na flor dos pomares", explicou.
Especialistas reforçam que essa suspeita faz todo sentido do ponto de vista biológico e acende um alerta importante sobre os riscos ambientais. O professor e biólogo Leonardo Seneme alerta que, se confirmada a intoxicação por produtos tóxicos, as consequências podem se estender muito além das colmeias.
Impactos ambientais amplos e preocupantes
Segundo o biólogo Leonardo Seneme, a administração inadequada de agrotóxicos pode ter efeitos devastadores em cadeia. "Se a gente for pensar na administração de agrotóxicos, eles podem ser despejados no solo, na água, nos rios, nas vegetações e isso acabar envenenando a nossa água, as nossas florestas, as nossas matas, os nossos animais, causando uma perda de biodiversidade muito grande", destacou.
O especialista explica ainda que o mecanismo de aplicação por pulverização facilita a dispersão desses produtos pelo ar, perdendo-se o controle sobre onde exatamente o veneno vai parar. Dependendo das condições de vento e da forma de aplicação, essas substâncias podem facilmente atingir regiões vizinhas e intoxicar seres vivos.
Fenômeno se repete e preocupa especialistas
Nos últimos meses, tem sido frequente o chamado de apicultores para capturar enxames que invadem áreas urbanas, um sinal claro de que a falta de alimento natural e o aumento no uso de defensivos tóxicos estão afetando diretamente a sobrevivência das colmeias. Essa migração forçada das abelhas para centros urbanos evidencia o desequilíbrio ambiental causado pelas práticas agrícolas.
Importância das denúncias formais
Apesar da gravidade da situação, a família de Lúcio ainda não registrou boletim de ocorrência. A Polícia Ambiental reforça que é fundamental formalizar denúncias nesses casos, já que a mortandade em massa de abelhas pode configurar crime ambiental, especialmente quando há indícios de uso irregular de agrotóxicos.
De acordo com dados da corporação, somente neste ano já foram atendidas mais de 46 mil denúncias ambientais em todo o estado de São Paulo e realizadas quase 11 mil fiscalizações. O canal oficial para denúncias é o Disque Denúncia 181, que garante o anonimato dos denunciantes.
Alerta para toda a comunidade
O caso de Analândia serve como um alerta importante não apenas para apicultores, mas para toda a sociedade sobre os riscos do uso indiscriminado de agrotóxicos. A perda de abelhas afeta diretamente a polinização de plantas, a produção de alimentos e o equilíbrio dos ecossistemas, com consequências que podem ser sentidas por gerações.
A mortandade desses insetos essenciais para o meio ambiente representa uma ameaça concreta à biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos que sustentam a vida no planeta. A formalização das denúncias e a fiscalização adequada são passos cruciais para proteger não apenas as abelhas, mas todo o ambiente natural que depende delas.