A cena parece tirada de um filme de ação: um jorro de gasolina brotando do solo como se fosse um poço de petróleo. Foi essa imagem surreal que chamou a atenção em uma fazenda na zona rural de Orlândia, interior de São Paulo, em outubro do ano passado. O episódio, no entanto, é parte de um problema real e crescente no país: o furto de derivados de petróleo transportados por dutos.
Números em alta após anos de queda
Dados da Transpetro, subsidiária da Petrobras responsável pela logística, revelam um cenário preocupante. Em 2025, foram registrados 31 casos de derivação clandestina, que é o termo técnico para a perfuração criminosa de dutos para roubar combustível. O número representa um aumento em relação aos 25 casos contabilizados em 2024, interrompendo uma sequência de quedas observada desde 2018.
Naquele ano, o Brasil havia atingido o pico histórico de 261 ocorrências desse tipo. A série histórica da empresa começou em 2015, embora o primeiro registro do crime date de 2011. O crescimento atual acontece apesar de um investimento anual de cerca de R$ 100 milhões em ações preventivas.
São Paulo concentra 70% dos casos no país
O estado de São Paulo é o epicentro do problema. Com 22 registros em 2025, foi responsável por aproximadamente 70% de todas as ocorrências nacionais. No ano anterior, haviam sido 17 episódios no estado. Na contramão, o Rio de Janeiro apresentou uma queda expressiva, saindo de 13 casos em 2020 para apenas um em 2025.
Para o presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, a situação em São Paulo não é pontual. “O crescimento das derivações clandestinas no estado não pode ser interpretado como um evento episódico, mas como um risco estrutural e sistêmico”, afirmou. Segundo a empresa, São Paulo é um alvo atraente por concentrar importantes dutos, como os que ligam a Refinaria de Paulínia (a maior do país) e ser cortado pelo oleoduto São Paulo–Brasília, o maior em extensão e volume.
Modus operandi e os riscos envolvidos
As quadrilhas costumam agir à noite. Pessoas com conhecimento técnico perfuram os dutos de aço e instalam válvulas improvisadas. Mangueiras similares às de bombeiros são usadas para transferir o produto para caminhões-tanque, caminhões-pipa ou veículos adaptados. O caso de Orlândia, na divisa com Sales Oliveira, ilustra os perigos: além do forte odor de combustível, havia risco de explosão e contaminação ambiental. Um homem foi preso no local.
Bacci alerta para a gravidade: “Apenas uma derivação clandestina é capaz de levar à morte de pessoas, provocar danos irreparáveis ao meio ambiente ou colocar em risco o abastecimento de combustíveis em infraestruturas críticas”. A Transpetro e a Petrobras optam por não divulgar o valor dos prejuízos, argumentando que a informação poderia incentivar a prática criminosa.
Combate e projetos de lei em tramitação
Entre as medidas de combate, a Transpetro utiliza sensores de pressão em tempo real, inteligência artificial, drones e escolta armada para fiscalização. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou ter intensificado operações integradas, mas não divulgou números específicos.
No Congresso Nacional, dois projetos de lei buscam tipificar os crimes de furto e roubo de combustíveis. Um é de autoria do deputado Juninho do Pneu (União-RJ) e aguarda análise no Senado. O outro foi apresentado pela senadora licenciada Simone Tebet (MDB-MS), atual ministra do Planejamento, e tramita na Câmara. A expectativa é que um marco legal mais rígido ajude a frear a onda de crimes.