Agenda Verde: ONU alerta para explosão de eventos climáticos extremos na América Latina
ONU alerta para explosão de eventos climáticos extremos na AL

A América Latina enfrenta uma nova realidade climática, marcada por extremos cada vez mais frequentes: longos períodos de seca seguidos por chuvas intensas e devastadoras. Esse fenômeno, denominado por especialistas como “efeito chicote hidrológico”, está alterando o regime das águas em diversos países da região, ampliando os riscos de enchentes, deslizamentos, falta de abastecimento e perdas agrícolas. O alerta consta em um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência ligada à ONU, divulgado nesta semana. O documento destaca que a combinação entre aquecimento global e eventos climáticos naturais, como o El Niño, tem acelerado as mudanças no clima latino-americano e elevado os impactos econômicos e sociais.

Região alterna seca severa e enchentes destrutivas

De acordo com o relatório, diferentes países da América Latina passaram a registrar episódios extremos em sequência, sem tempo suficiente para recuperação ambiental ou reposição de reservatórios. No México, por exemplo, o ano passado combinou calor recorde, seca generalizada e chuvas históricas ao mesmo tempo. Enquanto boa parte do país enfrentava estiagem, eventos extremos de precipitação provocavam enchentes em outras regiões. No Equador e no Peru, enchentes afetaram mais de 100 mil pessoas neste ano. Já a Cidade do México voltou a enfrentar risco de desabastecimento hídrico para seus mais de 20 milhões de habitantes. Especialistas afirmam que as chuvas intensas deixaram de representar necessariamente recuperação hídrica. Em muitos casos, a água cai em volume tão elevado e em curto espaço de tempo que escorre rapidamente, provoca enchentes e deslizamentos, mas não recompõe rios, aquíferos ou a umidade do solo.

Brasil amplia monitoramento diante de nova realidade

O Brasil aparece no relatório como um dos países que vêm ampliando sistemas de monitoramento climático e prevenção de desastres. Durante a apresentação do estudo, representantes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) afirmaram que o país está expandindo sua rede de acompanhamento de áreas vulneráveis. A previsão é dobrar o número de municípios monitorados, passando de cerca de mil para dois mil até o fim do ano. O governo também planeja ampliar o número de estações automáticas de medição de rios e enchentes. Segundo especialistas brasileiros, eventos extremos se tornaram mais difíceis de prever com base apenas no histórico climático, já que o aquecimento do planeta vem alterando padrões considerados relativamente estáveis nas últimas décadas.

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Calor extremo já provoca milhares de mortes

O relatório estima que ao menos 13 mil mortes por ano estejam associadas ao calor extremo em 17 países latino-americanos analisados. A própria ONU afirma, porém, que o número provavelmente é subestimado, porque muitos países ainda não contabilizam adequadamente óbitos ligados a ondas de calor. Nos últimos anos, diferentes regiões da América Latina registraram temperaturas acima de 40°C, pressionando sistemas de saúde, redes elétricas e produção agrícola. O estudo aponta riscos crescentes para culturas importantes da região, como café, milho, cacau e feijão, além de impactos sobre geração hidrelétrica e abastecimento urbano.

Furacões mais intensos e geleiras em desaparecimento

A ONU também alerta para a intensificação de tempestades tropicais e para o avanço do derretimento de geleiras nos Andes, processo que ameaça o abastecimento de água de dezenas de milhões de pessoas. Segundo estimativas citadas no relatório, cerca de 90 milhões de habitantes dependem, direta ou indiretamente, da água proveniente das geleiras andinas, especialmente em países como Chile, Peru, Colômbia e Argentina. Ao mesmo tempo, furacões vêm ganhando força mais rapidamente. Um dos exemplos citados pela OMM é o furacão Melissa, que atingiu a Jamaica em 2025 com ventos superiores a 300 km/h e provocou prejuízos equivalentes a cerca de 40% do PIB do país.

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Aquecimento acelera em ritmo recorde

O relatório mostra ainda que o aquecimento na América Latina vem se acelerando nas últimas décadas. Entre 1991 e 2025, a temperatura média da região aumentou no ritmo mais rápido desde o início dos registros modernos, no começo do século 20. A tendência acompanha o avanço das emissões de gases de efeito estufa e a intensificação de eventos climáticos extremos em diferentes partes do planeta. Para especialistas da ONU, o cenário reforça a necessidade de ampliar sistemas de alerta, infraestrutura urbana resiliente e cooperação regional para enfrentar enchentes, secas e ondas de calor que tendem a se tornar mais frequentes e intensas nas próximas décadas.