Origem da sífilis pode ter 5.500 anos e vir de caçadores-coletores da América do Sul
Origem da sífilis tem 5.500 anos e vem de caçadores-coletores

Uma pesquisa publicada na última quinta-feira (22) na revista Science traz novas evidências sobre as origens da sífilis, uma das doenças sexualmente transmissíveis mais temidas da história. Os autores do estudo argumentam que a moléstia provavelmente remonta a uma época em que a maioria dos indígenas da América do Sul vivia em grupos de caçadores-coletores.

Descoberta de DNA antigo na Colômbia

Os pesquisadores identificaram o DNA de uma bactéria bastante semelhante à causadora da sífilis nos ossos de um homem de meia-idade que morreu há 5.500 anos. O esqueleto foi encontrado no abrigo rochoso de Tequendama, uma área montanhosa na região metropolitana de Bogotá, na Colômbia.

O material genético do micro-organismo corresponde a uma linhagem muito antiga da espécie Treponema pallidum, cujas subespécies atuais desencadeiam uma série de doenças, incluindo a sífilis. A bactéria pré-histórica colombiana pertence a um subgrupo de T. pallidum que não se encaixa exatamente em nenhuma das subespécies modernas.

Genes de virulência e adaptação ao ser humano

No entanto, a bactéria já carregava o que os biólogos moleculares chamam de genes de virulência. Essas características do DNA permitiam que o micro-organismo invadisse e explorasse o organismo humano, causando danos ao hospedeiro.

Isso significa que os ancestrais da T. pallidum já tinham um histórico anterior de adaptação ao corpo do Homo sapiens. Segundo estimativas dos autores, essa adaptação pode ter começado no final da Era do Gelo, há cerca de 14 mil anos. Os pesquisadores advertem, porém, que esse cálculo ainda comporta muitas incertezas.

Coordenação internacional da pesquisa

O trabalho foi coordenado por dois pesquisadores que atuam na Suíça: Davide Bozzi e Anna-Sapfo Malaspinas, da Universidade de Lausanne. Também participou Elizabeth Nelson, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos.

Antes dos achados a partir do esqueleto de Tequendama, o registro mais antigo do DNA dessas bactérias tinha vindo de um dos sambaquis do litoral de Santa Catarina. Nesse estudo anterior, feito por pesquisadores brasileiros, a datação era de cerca de 2.000 anos, e a subespécie identificada foi a Treponema pallidum endemicum.

As diferentes subespécies e suas doenças

Atualmente, as subespécies de T. pallidum causam uma série de enfermidades:

  • Treponema pallidum endemicum: causa a doença conhecida como bejel, que começa com lesões na boca e na pele.
  • Treponema pallidum pertenue: desencadeia a chamada bouba, moléstia que cria feridas na pele, nos ossos e nas juntas.
  • Treponema pallidum pallidum: provoca a sífilis propriamente dita.

Dessas, apenas a sífilis é transmitida rotineiramente por contato sexual. Durante séculos, ela teve manifestações letais, podendo causar deformidades e danos neurológicos. O tratamento com antibióticos, hoje, costuma combater qualquer um desses micróbios com bastante eficácia.

O debate histórico sobre a origem da sífilis

Os primeiros registros históricos da sífilis são de epidemias na Europa Ocidental no fim do século 15, poucos anos depois do retorno dos navios de Cristóvão Colombo em suas primeiras viagens ao continente americano.

Havia incertezas sobre a origem da doença: de um lado, as datas pareciam indicar que ela surgira nas Américas, mas, por outro, o movimento de epidemias ao longo dos primeiros séculos coloniais quase sempre tinha sido do Velho Mundo para o Novo Mundo, e não o contrário.

Nas últimas décadas, estudos que identificaram lesões compatíveis com a sífilis e suas primas em esqueletos antigos, bem como os dados de DNA mais recentes, deixaram claro que o centro de origem era mesmo a porção tropical do continente americano.

Condições sociais diferentes do Velho Mundo

O novo estudo resolve alguns desses mistérios, ainda que nem de longe todos eles. O primeiro tem a ver com as condições sociais que levaram à origem desse subgrupo de moléstias.

No Velho Mundo, muitas das principais doenças infecciosas apareceram em associação com a domesticação de plantas e animais e o aumento da densidade populacional que esse processo muitas vezes desencadeia.

De acordo com esse modelo, além do aumento do número de habitantes e da proximidade entre eles com a formação de vilas e cidades – fatores que facilitam a transmissão mais rápida de um micróbio causador de doenças –, a presença constante dos animais domésticos ao lado dos seres humanos também facilita a passagem de micro-organismos típicos dos bichos para o organismo do H. sapiens.

O cenário há 5.500 anos em Tequendama, no entanto, é bem diferente disso. A região presenciava movimentos populacionais na época, segundo o que a arqueologia revela, mas ainda era habitada por caçadores-coletores, como o homem – com idade estimada entre 45 anos e 60 anos no momento da morte – que carregava a bactéria em seu organismo.

Pista importante: semelhanças com bactéria de coelhos

É aí que entra outro detalhe importante dos achados. O álbum de família montado pelos pesquisadores a partir do DNA antigo da Colômbia e de outras amostras antigas e modernas indica algumas semelhanças entre a linhagem da bactéria e a de outro tipo de Treponema que afeta coelhos selvagens.

Não se trata do ancestral direto do T. pallidum, mas, para os pesquisadores, é uma pista de que a sífilis e as demais doenças podem ter vindo originalmente do contato dos caçadores indígenas, talvez ainda na Era do Gelo, com bactérias dos animais que caçavam.

Esse é um mecanismo muito importante para a gênese de doenças emergentes ainda hoje, destacando como o contato entre humanos e animais selvagens pode dar origem a novas enfermidades.