Museus europeus revisitam o uso de corpos humanos em arte e ciência
No século XVII, o holandês Aris Kindt foi preso por roubo em Amsterdã e condenado à morte. Seu corpo, em vez de sepultamento, foi usado como modelo para a dissecação anual da Guilda dos Cirurgiões. O pintor Rembrandt imortalizou a cena na obra A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632), que simboliza o fascínio e a utilidade dos cadáveres para a cultura ocidental. Graças a eles, a pintura renascentista atingiu novos patamares e a medicina avançou significativamente. No entanto, uma nova ética sobre o uso de corpos humanos ganhou força, gerando desconforto em museus que possuem restos humanos em seus acervos.
Exposições na Europa questionam legado
O peso na consciência atinge especialmente os museus europeus, como ilustram duas exposições. No Museu Thackray de Medicina, em Leeds, Inglaterra, uma mostra investiga os corpos usados em pinturas e registros anatômicos. Na Holanda, o Museu Vrolik, em Amsterdã, aborda o uso de corpos para pesquisas anatômicas no passado. O acervo do Vrolik inclui ossadas e fetos, e recentemente o museu repatriou crânios de cidadãos locais levados para a Europa durante o período colonial para embasar teorias racistas. Os crânios foram devolvidos às Ilhas Molucas, e as vitrines antes ocupadas por eles agora estão vazias, formando um memorial perturbador.
Reparação e identidade
A mostra inglesa busca iluminar a identidade das pessoas que tiveram seus corpos usados como modelos sem consentimento. Segundo Isabela Ferreira, historiadora do Masp, não havia preocupação com a identificação desses corpos. No Renascimento, Leonardo da Vinci e Michelangelo dissecavam cadáveres para entender músculos e ossos, retratando o corpo humano com perfeição. A ilustração anatômica também dependeu desse uso. Agora, não se pode ignorar que por trás dos corpos havia seres humanos cuja dignidade precisa ser respeitada. O caso de Aris Kindt, condenado por um crime leve, é emblemático. “A mania da dissecação causava polêmica, mas não o suficiente para impedir seu uso”, diz Tiago dos Santos Mesquita, da USP.
Problema colonial e números alarmantes
O problema dos corpos angustia os museus europeus por uma questão existencial: eles são elementos fundadores de coleções nascidas no auge do colonialismo. Na Inglaterra, instituições como o Museu Britânico estão incluídas. Em 2003, um relatório oficial analisou a coleta desses itens e seu impacto sobre populações indígenas, reconhecendo que ajudou a justificar teorias que tratavam não europeus como menos evoluídos. Segundo o The Guardian, há 260 mil fragmentos de corpos humanos em museus do Reino Unido. Hoje, é difícil esconder tantos esqueletos no armário.



