Crânio de dinossauro Irritator challengeri repatriado da Alemanha ao Brasil
Crânio de dinossauro repatriado da Alemanha ao Brasil

No fim de abril, Brasil e Alemanha firmaram um acordo histórico: o crânio do dinossauro Irritator challengeri, extraído ilegalmente do território brasileiro e mantido há décadas em solo europeu, será devolvido ao seu país de origem. O compromisso foi assinado pelo presidente Lula e pelo chanceler Friedrich Merz. Na declaração conjunta, os governos celebraram a disposição do Estado de Baden-Württemberg e do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart em entregar definitivamente o fóssil ao Brasil.

O que é o Irritator challengeri?

O animal viveu há entre 110 e 113 milhões de anos, durante o período Cretáceo, na região que hoje corresponde à Chapada do Araripe, no Ceará. Pertencente à família dos espinossaurídeos — dinossauros carnívoros que habitavam ambientes aquáticos —, o Irritator é dono de um título de peso na paleontologia: seu crânio é o mais completo já encontrado de toda a família no mundo. Apesar disso, sua história fora do Brasil é um longo capítulo de contrabando e exploração científica.

Como o fóssil foi parar na Alemanha?

O fóssil foi retirado ilegalmente do Brasil e vendido a um comerciante particular, que o repassou ao museu de Stuttgart em 1991. A transação ocorreu em flagrante violação à legislação brasileira, que desde 1942 classifica fósseis como bens da União e proíbe sua exportação sem autorização. Para piorar, quando pesquisadores europeus descreveram a espécie, em 1996, descobriram que traficantes haviam adulterado o fóssil: o focinho do animal fora artificialmente alongado e preenchido com gesso e massa automotiva para que a peça parecesse mais completa — e, portanto, mais valiosa no mercado ilegal. A “irritação” diante da fraude foi tanta que os cientistas a imortalizaram no próprio nome do animal. O epíteto challengeri, por sua vez, é uma homenagem ao Professor Challenger, personagem do romance O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle.

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Mobilização pela repatriação

A mobilização pelo retorno do Irritator ganhou força a partir de um precedente bem-sucedido: em 2023, o dinossauro Ubirajara jubatus, também contrabandeado para a Europa, foi repatriado ao Brasil. Inspirada por essa vitória, a comunidade científica brasileira organizou uma campanha de grande alcance. Liderados pela paleontóloga Aline Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pesquisadores e ativistas usaram as redes sociais para denunciar o caso. A pressão ganhou escala internacional com uma carta aberta assinada por 263 especialistas de todo o mundo e uma petição online com mais de 34 mil assinaturas, ambas exigindo o retorno imediato da peça.

Próximos passos

Concretizado o acordo diplomático, o fóssil deverá passar por rigorosos trâmites logísticos de transporte antes de chegar ao seu destino final: o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, vinculado à Universidade Regional do Cariri (Urca), em Santana do Cariri, no Ceará — próximo ao local onde foi encontrado. Para a ciência brasileira, a repatriação do Irritator challengeri é mais do que um ganho acadêmico. É a recuperação de uma identidade roubada e um precedente poderoso na luta pela descolonização do conhecimento científico.

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