No coração de Goiânia, cafés, livrarias, óticas, lojas de artigos religiosos, bares e bancas de jornal se entrelaçam com a arquitetura Art Déco, formando um mosaico de histórias e sonhos. Cada porta e fachada abriga o sustento de alguém, mesmo diante do esvaziamento que o bairro enfrenta nos últimos anos, impulsionado por transformações sociais e econômicas, conforme apontam comerciantes e especialistas.
O declínio e a esperança
Nos áureos tempos, o Centro concentrava grande número de empresas e uma vida noturna intensa. Para Larissa Ribeiro, gerente da regional central do Sebrae Goiás, a digitalização dos negócios e a criação de outros polos comerciais estão entre as causas da redução do comércio local. “A presença digital e a forma de consumo estão mudando, aceleradas pela pandemia. Antes, as pessoas se deslocavam para trabalhar e consumir no Centro; com a queda da densidade populacional, o movimento diminuiu”, explica.
Apesar disso, dados da Receita Federal de 2026 mostram que mais de 23 mil pequenos negócios estão registrados no Centro de Goiânia. Embora nem todos estejam ativos presencialmente, o número expressivo revela que empreendedores e moradores não desistiram do bairro. Comerciantes ouvem frequentemente que “o Centro está morrendo”, mas se recusam a deixar que isso se concretize.
Resistência cultural na Hocus Pocus
Na esquina das avenidas Araguaia e Paranaíba, Paulo César de Oliveira Assunção, de 60 anos, e seus irmãos Luiz e Júnior mantêm a Feirão Hocus Pocus há 34 anos. A loja, com cerca de 10 mil itens entre livros, discos de vinil, CDs e objetos antigos, é um ponto de resistência cultural. “A gente é como um ponto de resistência cultural”, afirma Paulo César, que vê na loja uma contribuição para manter viva a esquina. “Sem a gente, seria mais uma esquina vazia”, reflete, enquanto observa uma placa de ‘aluga-se’ do outro lado da rua.
Tradição e renovação no Zé Latinhas
O arquiteto e empresário Áureo Rosa, de 30 anos, comanda o Zé Latinhas, bar fundado por seu avô nos anos 1960, considerado o mais antigo de Goiânia. Em 2020, ao assumir a gestão, encontrou um cenário desanimador. “Existia o estigma do Centro como algo morto”, conta. Ele então criou um movimento para reavivar a vida noturna, convidando as pessoas a “vir para o Centro”. Hoje, a rua abriga cerca de 15 bares, e o sucesso permitiu a abertura do Maria Garrafinhas na Rua do Lazer. “O Centro tem problemas, mas há resistência e coisas interessantes acontecendo”, diz.
Fé e tradição na Show Luz
Na Rua 4, Adriana e Edmilson Neves mantêm a loja de lâmpadas Show Luz há 30 anos. Durante o “boom” da rua, famosa por calçados, eles prosperaram. Com a mudança no consumo e o fechamento de comércios, a tradição e a fé os mantêm. “Não existe cidade sem Centro. Acreditamos no bairro”, destaca Adriana. Eles buscam se atualizar com serviços modernos, como iluminação LED e presença online.
Esperança na Naturais Alimentos
Na Avenida Araguaia, Maria Verônica Alves de Azevedo, de 59 anos, comanda a Naturais Alimentos, aberta há mais de 20 anos com o marido. A loja, que serve almoço vegetariano e vende grãos, enfrenta desafios diários, mas ela se sente privilegiada. “O que me mantém é a esperança de dias melhores. Gero emprego, pago impostos e realizo um sonho com minha família”, afirma.
Um novo olhar para o futuro
Paulo César defende que as pessoas precisam “viver” o Centro, não apenas comprar e ir embora. Áureo vê uma mudança na geração jovem, que enxerga o bairro como um lugar legal para sair à noite. O corretor Delci Meireles, morador do Setor Central há três anos, destaca a praticidade: “Aqui tem tudo que você precisa a pé. Fico dias sem tirar o carro da garagem”.
Caminhos e medidas públicas
Larissa Ribeiro, do Sebrae, afirma que os pequenos negócios são essenciais para a recuperação do bairro. “Eles são a vida do Centro”, diz. A prefeitura implementou ações como a revitalização da Rua do Lazer, redução de camelôs e projetos como Morar no Centro e Revitaliza. O secretário Adonídio Neto Vieira Júnior destaca que o Centro está em quinto lugar em abertura de empresas na cidade. Comerciantes podem buscar orientação na Casa do Empreendedor, em parceria com o Sebrae.
O Centro de Goiânia pode não estar tão movimentado como antes, mas permanece cheio de esperança. Enquanto o comércio dá vida ao bairro, o bairro alimenta os sonhos de quem ali empreende.



