As dunas do destino turístico no Ceará escondem uma vila que foi soterrada há mais de 40 anos. Quando as areias avançaram sobre a vila de Tatajuba, na década de 1970, a igreja foi uma das primeiras construções a serem cobertas, conforme relatam moradores. Em seguida, a escola, o posto de saúde e dezenas de casas também foram engolidas pela areia.
Localizada no município de Camocim, no litoral cearense, a área era o lar de pescadores e agricultores de uma comunidade tradicional. Um dos guardiões dessa memória é João Batista dos Santos, pescador conhecido como Tita. Sua mãe morava na vila que foi soterrada. Ele conta que ela precisou deixar a casa ainda grávida. Tita recorda os relatos que ouvia da mãe.
Uma vila próspera
“Já era uma vila muito grande na época. Era maior do que o antigo Serrote, que hoje é Jericoacoara, famosa internacionalmente. Naquela época já existia igreja, posto policial, colégio, as pessoas estudavam. Os festejos de lá eram os maiores dessa região. Era uma vila muito grande, que se não tivesse soterrada, hoje seria quase uma cidade”, afirma João Batista.
O professor Jeovah Meireles, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que o soterramento ocorreu porque a comunidade foi instalada diretamente na rota natural de migração das dunas, em uma região mais alta e plana, conhecida tecnicamente como “tabuleiro”.
O processo de soterramento
A vila de Tatajuba foi soterrada gradualmente na década de 1970, pois foi construída no meio do trajeto de dunas móveis, comuns no Ceará. O movimento das areias é natural, causado pelo vento e pela falta de vegetação. Isso forçou a população a migrar para áreas vizinhas. Não há dados oficiais sobre quantos moradores foram afetados.
Após o desaparecimento da antiga vila sob a areia, os moradores buscaram abrigo em comunidades vizinhas, formando o atual distrito de Tatajuba, reconhecido em 12 de novembro de 2025 pela Lei Municipal nº 1716/2025. O território, com mais de cinco mil hectares, é composto por quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco.
Memórias dos moradores
Não há consenso sobre quando a vila começou a ser povoada, mas moradores mais antigos afirmam que os primeiros núcleos familiares já existiam no início do século XX. O pescador João Batista de Paula, conhecido como João “Errado”, vive há 78 anos no distrito e acompanhou o início do processo. Ele morava ao lado da antiga vila e lembra do desespero dos vizinhos.
“Lá tinha uma vila de pescadores, a duna foi cobrindo e o pessoal saiu e fez essa que se chama Vila Nova. A duna foi cobrindo tudo, não deu para salvar nada”, conta.
Na época, a região era mais conhecida como Cabaceiras. O nome Tatajuba veio depois, em homenagem a uma árvore comum na região. A partir de 1970, a vila passou a ser atingida com mais força pelas dunas móveis — acúmulos de areia que se deslocam pela ação dos ventos.
João Batista, conhecido como Tita, acrescenta que a família reconstruiu a vida a cerca de um quilômetro do antigo local. Atualmente, além de pescar, Tita desenvolve trabalho comunitário na Associação de Moradores de Tatajuba, presidida por Angelaine Alves, sua companheira.
“Em 1978, saíram as últimas famílias e vieram para Vila Nova. Lá tinha igreja, casas, comércios. Com a chegada das dunas, ficou tudo debaixo das areias. Teve um tempo que os vestígios da antiga igreja vieram à tona. Hoje tem várias pessoas morando lá. Depois do soterramento, começou outra formação de vila, que se chama São Francisco”, relembra Angelaine.
Explicação científica
As dunas móveis podem ser encontradas em boa parte da costa semiárida brasileira, especialmente em locais sem vegetação ou com pouca cobertura vegetal. Elas são ecossistemas dinâmicos, pois os ventos movem as dunas, mudando sua posição ao longo dos anos. Essas informações constam no Atlas do Assentamento Estadual e Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Planície Costeira de Tatajuba, estudo do professor Jeovah Meireles.
O documento detalha que, em Tatajuba, as dunas se destacam como elementos paisagísticos notórios, com tamanhos e formas variadas — como formato de lua crescente ou “C”. Uma duna móvel se destaca: a Duna Encantada, com cerca de 30 metros de altura e área de 120.000 m². “Este gigante arenoso acumula aproximadamente 140.000.000 m³ de areia”, descreve o Atlas.
Jeovah explica que o soterramento ocorreu porque a comunidade foi instalada na rota natural de migração das dunas. “Ali, as dunas maiores podem migrar até 12, 15 metros por ano. As dunas menores podem migrar até 30 metros por ano. Todo o sistema ali é regido por essas conexões: zona de praia, campos de dunas, canais de marés, sistemas de fluxos fluviais e as lagoas costeiras”, detalha.
Durante o segundo semestre, os ventos ficam mais fortes e transportam grandes quantidades de areia da faixa de praia para o interior. Como a vila foi construída no meio desse trajeto, funcionou como uma “barreira” física. A areia passava pelas ruas e corredores estreitos entre as residências. Com o tempo, o acúmulo gerou volume suficiente para soterrar não apenas as casas, mas também as cacimbas, poços de onde a comunidade tirava água.
Jeovah, que estuda a região há 26 anos, alerta para o risco de construir na região, especialmente grandes projetos turísticos não sustentáveis. “As comunidades tinham espaço para convivência com os campos de dunas até os anos 1980, pois o litoral do Ceará é praticamente um único campo de dunas. As pequenas comunidades ficavam bailando de acordo com a regência das dunas”.
Turismo e especulação imobiliária
Marcada por dunas, lagoas e próxima ao mar, a praia de Tatajuba faz parte da Rota das Emoções, destino turístico que inclui Jericoacoara e o Delta do Parnaíba. A região está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), determinada pela Lei Municipal Nº. 559/94 e redefinida em abril de 2026.
Apesar da proteção ambiental, o território absorve parte do público e do ritmo da Vila de Jericoacoara, conhecida internacionalmente. De acordo com a prefeitura de Camocim, a cidade recebeu 892.251 turistas em 2025. Moradores temem os efeitos negativos desse “hype” sobre o meio ambiente, a pesca artesanal e a agricultura.
Após o soterramento, os moradores encontraram outra ameaça. Em 2001, descobriram que o terreno onde estão as quatro vilas foi comprado por uma grande empresa de turismo, sem regularização das terras. “Ela tinha o projeto de construir um condado ecológico com cinco campos de golfe. Isso significava que todas as pessoas que moravam nas quatro vilas teriam que sair, ou seriam expulsas. A Associação dos Moradores entrou com dois processos na Justiça para interditar qualquer construção e anular as matrículas”, explica Angelaine.
Esse imbróglio durou mais de 20 anos e ainda está em resolução. O reconhecimento das terras ocorreu em setembro de 2023, quando o Idace e a Defensoria Pública da União fecharam acordo para que a maior parte da terra fosse doada ao Idace. A propriedade, agora do Estado, tem 2.459.734 hectares.
Mesmo com parte do problema resolvido, a população reconhece que o distrito não é mais o mesmo. Com paisagem paradisíaca e localizado próximo a Jijoca de Jericoacoara, Tatajuba teme o turismo desenfreado e a especulação imobiliária. Áreas viram alvo de invasões e degradação pelo trânsito de veículos. Estudos do professor Jeovah Meireles indicam que o crescente interesse de empresários cercando terrenos irregularmente acende alerta para futuros conflitos.
Em fevereiro de 2024, uma operação entre Idace, Ibama, Superintendência Estadual do Meio Ambiente e Polícia Militar do Meio Ambiente derrubou cercas e placas de comercialização de terrenos públicos na área de Tatajuba. Não há informação de quantas foram retiradas.
Alexandre Maia, procurador-geral de Camocim, explica que a cidade conta com uma Autarquia de Meio Ambiente atuante, responsável por analisar e barrar empreendimentos que causem impactos. O foco é conter o avanço desordenado de construções. “Nenhum empreendimento será instalado em Tatajuba sem licenciamento ambiental. Se estão em áreas de preservação permanente, não podem ocupar”, afirma.
Área de Proteção Ambiental
O distrito está inserido em uma APA, redefinida em 15 de abril de 2026 pela lei municipal 1728/2026. A região passou a ser denominada Área de Proteção Ambiental Municipal Tatajuba-Guriú, com perímetro de 43,97 km. A mudança visou adequação ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). O objetivo é assegurar uso sustentável dos recursos naturais, proteger a diversidade biológica, ordenar a ocupação humana e promover a melhoria da qualidade ambiental.
Com a atualização, a Autarquia Municipal de Meio Ambiente (AMA) deve: proteger ecossistemas frágeis; disciplinar a ocupação do solo; assegurar a conservação de recursos hídricos, dunas, restingas e manguezais; compatibilizar atividades econômicas com a conservação; promover educação ambiental e participação comunitária; e fomentar turismo sustentável e de baixo impacto.



