Força Nacional tem atuação prorrogada até 2026 em conflitos de terra no sul da Bahia
Força Nacional prorrogada até 2026 em conflitos na Bahia

Força Nacional tem atuação estendida até 2026 em meio a tensões no sul da Bahia

O Ministério da Justiça e Segurança Pública autorizou formalmente a prorrogação do emprego da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) no extremo sul do estado da Bahia. A medida, publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira, dia 22, permite que os agentes continuem atuando na região até o dia 21 de abril de 2026, oferecendo suporte direto à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Contexto de tensões históricas na região

As áreas sul e extremo sul da Bahia são palco de disputas territoriais intensas que envolvem comunidades indígenas, especialmente os povos Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe, e produtores rurais estabelecidos na localidade. Segundo dados da própria Funai, pelo menos seis indígenas perderam a vida em conflitos relacionados a terras nos últimos três anos, evidenciando a gravidade da situação.

Os embates na região não são recentes – arrastam-se há décadas, com origens complexas que incluem processos de grilagem de terras e disputas fundiárias. Contudo, especialistas apontam que a tensão se intensificou significativamente a partir de 2022, período que antecedeu a votação do Marco Temporal, legislação que estabelece regras para demarcação de territórios indígenas.

Detalhes da operação e coordenação institucional

A portaria que oficializa a prorrogação foi assinada pelo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e determina que a operação receberá apoio logístico integral do ministério. A atuação da Força Nacional será articulada em conjunto com os órgãos de segurança pública do estado da Bahia, sob a coordenação operacional da Polícia Federal.

A Força Nacional de Segurança Pública é um programa de cooperação coordenado pelo Ministério da Justiça, composto por policiais militares, bombeiros, policiais civis e peritos criminais. Sua mobilização ocorre tradicionalmente em situações de emergência ou de elevada complexidade que demandam reforço imediato.

Relatos de violência e medo constante

Funcionários da Funai na região têm expressado apreensão diante do agravamento da violência. Em depoimento anterior, um servidor que preferiu manter o anonimato revelou que o coordenador regional da fundação precisou ser removido da área após receber ameaças diretas contra sua vida e família. “Todos os colegas estão apreensivos e de uma certa maneira com medo da violência que tem se agravado”, afirmou o funcionário.

Do lado indígena, o cacique Gitay Pataxó descreve um cenário de terror noturno: “Fica uma imagem muito triste na nossa mente, nas nossas crianças. Ninguém dorme direito, é uma situação que fica até difícil de se explicar”. Segundo os relatos, ataques costumam ocorrer durante a noite, criando um clima permanente de insegurança.

Perspectiva dos produtores rurais e movimento organizado

Agricultores também apresentam suas versões, denunciando supostas invasões e agressões. José Geraldo Favarato, produtor rural, afirma ter sido expulso de sua propriedade: “Me expulsaram da fazenda e tomaram conta de tudo. Eles pegaram um trabalhador meu que estava lá no cacau, bateram, espancaram e expulsaram ele. Acabou com minha vida”.

Em reação às ocupações, foi criado o movimento Invasão Zero, que segundo a coordenadora Renilda Souza, atua dentro da legalidade: “Nós não contratamos ninguém com violência, nós não fazemos isso absolutamente. Quando tem um chamado, a gente faz um alerta, entra em contato com o produtor, vai na polícia, dá queixa”. Indígenas, porém, acusam integrantes do grupo de atuarem como milícia armada.

Ações recentes da Força Nacional e incidentes graves

Desde o início de sua atuação em Porto Seguro, em 28 de abril, a Força Nacional já se envolveu em operações de grande repercussão:

  • Prisão do cacique Suruí Pataxó, Welington Ribeiro de Oliveira, flagrado com armas e munições em 2 de julho, gerando protestos que bloquearam a BR-101 por horas.
  • Operação Vértice Zero em Caraíva, distrito de Porto Seguro, em 23 de julho, resultando na morte de cinco homens e prisão de seis suspeitos de homicídios, tráfico e ocupação ilegal de terras indígenas.

Além das ações policiais, a região registrou quatro assassinatos brutais em julho:

  1. Em 9 de julho, dois indígenas – Itarauí Santana de Souza, 24 anos, e Gil do Monteiro dos Santos, 35 anos – foram encontrados mortos a tiros em Barra Velha, aparentemente vítimas de emboscada.
  2. Em 19 de julho, Bruno Dias Alves e Carliane de Jesus Constantino, ambos de 30 anos, foram localizados decapitados em Aldeia Boca da Mata, com sinais de facadas e tiros. Nas roupas das vítimas foram encontradas porções de cocaína e maconha.

Buscas por soluções institucionais

Eloy Terena, secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas, defende a necessidade de arranjos inovadores: “Não adianta só eu falar, o meu direito é originário, o meu título eu adquiri. O Estado precisa buscar formas modernas para poder garantir o território desses povos originários, mas ao mesmo tempo reconhecer o seu erro por ter titulado terras que não deveriam ser tituladas a terceiros”.

A situação permanece delicada, com investigações em andamento sobre os crimes recentes e nenhuma prisão efetivada até o momento em relação aos assassinatos. A presença da Força Nacional até 2026 representa uma tentativa do governo federal de estabilizar a região, mas os desafios históricos e as paixões envolvidas sugerem que o caminho para a paz territorial ainda será longo e complexo.