Queda de rochas em Juiz de Fora: entenda por que blocos continuam caindo mesmo após a chuva
Queda de rochas em Juiz de Fora: por que blocos caem após chuva?

Queda de blocos rochosos atinge fundos de condomínio em Juiz de Fora e gera alerta contínuo

Após os recentes registros de quedas de blocos no Morro do Cristo, em Juiz de Fora, incluindo o deslizamento que atingiu o fundo de um condomínio na rua Olegário Maciel na última quarta-feira (18), uma dúvida comum entre os moradores é por que as pedras continuam caindo mesmo quando a chuva para? Diferente dos deslizamentos de terra 'comuns', que costumam ocorrer imediatamente durante temporais, a queda de rochas obedece, na maioria das vezes, a uma lógica geológica distinta.

Risco dinâmico no Morro do Cristo

Segundo Douglas Cabral, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o risco no Morro do Cristo é "dinâmico" e não termina quando a chuva para. O monumento natural é uma elevação geomorfológica embasada predominantemente por uma rocha chamada granulito. As rochas têm um padrão de fraturamento muito intenso e diverso, o que faz com que haja uma suscetibilidade natural a movimentos de massa do tipo queda e rolamento de blocos.

Diferentemente do que se imagina, o morro não é um bloco de pedra maciço e indestrutível. No topo, há uma camada delgada de solo (material terroso) sobre a rocha. Com o excesso de água provocado pelas chuvas do dia 23 de fevereiro, o solo encharcou, perdeu aderência e deslizou.

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O 'efeito delay': O tempo da rocha é diferente do solo

O pesquisador Douglas Cabral explica que o solo satura rapidamente diante de períodos intensos de chuvas, mas a água demora mais para penetrar nas fendas profundas das rochas (o maciço rochoso). "Existe um certo delay (atraso) entre a água cair e saturar o maciço que está abaixo do solo. Isso depende do nível de fraturamento da rocha. Essa infiltração tardia gera uma pressão interna que pode causar o desprendimento dias após o período chuvoso", afirma o pesquisador.

Além da água, outros fatores explicam os deslocamentos em períodos de estiagem:

  • Gravidade: Blocos que foram "descalçados" ou tiveram o solo ao redor erodido pela chuva ficam em equilíbrio instável, caindo a qualquer momento.
  • Variação térmica: O calor do sol causa a dilatação da rocha, o que pode gerar pequenas rachaduras e a queda de lascas ou blocos.
  • Ação humana: Cortes verticais feitos na rocha no passado (como os vistos na região da Gruta de Nossa Senhora de Fátima) potencializam a queda natural por removerem o suporte da encosta.

Mapeamento e relatórios técnicos

O risco no Morro do Cristo é classificado como alto e tem sido alvo de estudos constantes pelo Serviço Geológico do Brasil. O risco se divide conforme a composição do terreno:

  1. Queda de blocos: O relatório técnico adverte que o processo de queda ou tombamento de blocos pode ocorrer sem aviso prévio, tanto em períodos chuvosos quanto secos.
  2. Instabilidade em áreas interditadas: Locais como a Gruta de Nossa Senhora de Fátima são considerados inviáveis para eventos públicos devido à altura do paredão e à ausência de recuo de segurança.
  3. Risco de novos deslizamentos: Com o solo ainda saturado, a Defesa Civil mantém o alerta para áreas de encosta onde a vegetação foi removida ou onde existem blocos “em balanço”.

Em 2017, o foco foi o mapeamento das áreas de risco direto para as moradias locais. Já em 2024, um novo relatório avaliou o uso turístico da região, alertando para a alta suscetibilidade de queda de blocos, mesmo em períodos sem chuva. Por fim, um estudo de 2025 avaliou a aptidão urbana da cidade em áreas ainda não ocupadas.

Douglas Cabral explica que a região do Morro do Cristo não foi avaliada, mas afirmou que a área é de baixíssima viabilidade para novas construções, reforçando que intervenções no local são extremamente complexas e de alto custo.

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'A cidade não vai acabar': tranquilidade e monitoramento

Apesar do cenário de alerta, o pesquisador tranquilizou a população sobre o medo de um colapso total do morro sobre o Centro. "Não se espera um evento catastrófico que dissolva a cidade inteira. O relevo de Juiz de Fora e da Zona da Mata é naturalmente propenso a movimentos de massa, e o município precisa aprender a conviver com esse risco, monitorando os pontos mais críticos", ponderou.

Especialistas recomendam restringir o acesso ao morro em dias de chuva intensa e prolongada, além de monitorar constantemente as fraturas no topo dos paredões. A Defesa Civil de Juiz de Fora mantém o monitoramento das áreas. Contudo, o olhar do morador é fundamental.

O pesquisador do SGB lista sinais visuais que indicam que o terreno está se movendo:

  • No terreno: Surgimento de trincas no solo ou fendas na rocha.
  • Na vegetação/estruturas: Árvores, postes ou muros que começam a inclinar (efeito "barriga" no muro).
  • Dentro de casa: Portas ou janelas que passam a empenar ou abrir com dificuldade repentinamente.

"Na dúvida, não espere acontecer. Procure a casa de um parente ou um local seguro e acione a Defesa Civil", reforçou Douglas Cabral.

Telefones de Emergência

  • Defesa Civil: 199 (Atendimento 24h para vistorias e ocorrências de risco).
  • Corpo de Bombeiros: 193 (Emergências que envolvam risco iminente de vida ou desabamento).
  • Polícia Militar: 190 (Para suporte em evacuações de áreas de risco).