Macacos-pregos forçados a migrar após queimadas no interior cearense
Um fenômeno preocupante chamou a atenção no interior do Ceará: dezenas de macacos-pregos foram flagrados cruzando uma estrada que liga os municípios de Piquet Carneiro e Acopiara. As imagens, registradas no último sábado (17), mostram os animais em movimento constante, um comportamento diretamente associado às queimadas que assolam a região.
Registro impressionante em estrada perigosa
Adriano Vidal, motorista que mora em Piquet Carneiro e trabalha como cuteleiro artesanal, foi quem capturou as cenas. Ele conta que já havia observado a movimentação dos animais em outras duas ocasiões, mas desta vez a quantidade era significativamente maior.
"Quando eu me deparei, foi à distância. Vi o animal cruzando [a estrada], já lembrei logo, fui reduzindo a velocidade do carro, encostei. Quando eu encostei, começou a passar macaco de todo jeito, em grande quantidade mesmo", relatou Adriano.
O motorista alerta para os riscos envolvidos, especialmente em um trecho sinuoso da estrada que já tem histórico de colisões. "Tem risco para eles [os macacos] e, por exemplo, pra quem passa de moto, pode se acidentar também. Querendo ou não, gera um risco. Foi logo depois de uma curva. Uma curva que é conhecida por ser perigosa", destacou.
Curiosamente, Adriano observou que os animais pareciam relativamente acostumados com veículos, não demonstrando pânico extremo quando ele parou para filmar.
Queimadas como causa principal da migração
Karine Montenegro, coordenadora da Célula de Animais Silvestres da Secretaria Estadual de Proteção Animal do Ceará (Sepa), explicou que a migração dos macacos-pregos está diretamente ligada a ameaças ambientais, com destaque para as queimadas irregulares.
"A gente sabe que quando há queimadas de forma desordenada, de forma irregular, acaba que essas queimadas avançam o ponto e acabam devastando uma quantidade enorme de hectares de florestas e aquela fauna que ali sobrevivia, ela se sente na obrigação de migrar para outros lugares", afirmou Karine.
A coordenadora reforçou que muitas dessas queimadas são intencionais, realizadas por agricultores ou pecuaristas para limpar áreas destinadas ao plantio ou criação de gado. "Se ele faz essas queimadas de forma irregular, sem autorização adequada, acaba que, por muitas vezes, esse fogo vai para além do terreno dele", alertou.
Plano de ação para conservação da fauna
Diante desse cenário preocupante, a secretaria criou em 2025 o primeiro Plano de Ação Territorial de Conservação da Fauna Silvestre dos Sertões do Ceará, conhecido como PAT Sertões. Piquet Carneiro está localizado justamente na região do Sertão Central cearense.
Karine explicou que o Estado se reuniu com atores locais de todos os municípios dos sertões para desenvolver estratégias de combate às ameaças à fauna silvestre. "A gente tem toda a intenção de ainda esse ano, a gente começar com as primeiras ações que consigam combater as ameaças à nossa fauna silvestre", garantiu.
O Corpo de Bombeiros do Ceará foi contatado para comentar sobre os incêndios e queimadas na região, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. A situação permanece como um alerta ambiental urgente para o interior do estado.