Enchentes antecipadas no sul do Amazonas surpreendem população e devastam lavouras
No sul do estado do Amazonas, as enchentes chegaram antes do previsto e pegaram milhares de moradores completamente de surpresa. O nível do rio Purus, que corta o município de Boca do Acre, já está 22 centímetros acima da cota de inundação, um cenário que normalmente só ocorreria entre fevereiro e março, mas que se antecipou para janeiro deste ano.
Situação crítica na zona urbana
Na zona urbana do município, aproximadamente 4 mil pessoas vivem em áreas já alagadas, enfrentando dificuldades diárias com a subida das águas. A Defesa Civil local tem atuado de forma intensiva, distribuindo água potável para 170 famílias que solicitaram auxílio imediato.
O órgão mantém-se em prontidão total para evacuar moradores e levá-los a abrigos seguros caso o nível do rio continue subindo. Alguns residentes, já acostumados com o ciclo anual de enchentes, começaram a adaptar suas casas, mas a antecipação do fenômeno pegou a maioria desprevenida.
Impactos severos na zona rural
Na zona rural, os impactos são ainda mais devastadores. A água avançou sobre plantações inteiras, obrigando os produtores a anteciparem colheitas na tentativa de minimizar perdas financeiras significativas.
José Raimundo Batista, produtor de cana-de-açúcar, relata uma situação preocupante: "Sempre a água maior que nós temos passado aqui é de fim de fevereiro pra março, e esse ano ainda estamos em janeiro. Se fosse uma terra alta eu colheria duas vezes, como é na terra baixa eu colho uma vez, então se eu ia fazer 5 mil quilos de açúcar, eu vou fazer 2,5".
Gecivaldo, outro agricultor da região, plantou 5 mil pés de mandioca em área de várzea - escolha comum pelos produtores devido ao desenvolvimento mais rápido do plantio - mas não esperava a cheia tão precoce. Ele estima: "Com certeza, vai ter um prejuízo de mais ou menos estimativa de 40%, 45% de prejuízo. Porque a água chegou mais cedo, né? E não deu tempo da mandioca ficar mais ou menos no ponto certo de fazer a farinha, até mesmo de vender".
O que não puder ser colhido a tempo, segundo Gecivaldo, será completamente perdido, levado pela força das águas.
Monitoramento e orientações das autoridades
A Defesa Civil do município orienta todos os moradores de áreas de risco a procurarem o órgão em caso de necessidade urgente. Enquanto isso, especialistas alertam para a continuidade do problema.
Marcus Suassuna, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SBG), explica: "Existe previsão de continuidade das chuvas. Então é provável que o rio continue nesses níveis elevados, pelo menos pelos próximos 15 dias. A gente vai seguir com monitoramento com foco para esse período de cheia".
O monitoramento hidrológico será mantido de forma contínua, com atenção especial para as próximas duas semanas, período em que as chuvas devem persistir na região, mantendo o rio Purus em níveis preocupantes.