15 anos do desabamento do Real Class: tragédia que mudou a engenharia paraense
15 anos do desabamento do Real Class em Belém

Quinze anos de uma tragédia que transformou Belém

Nesta quinta-feira, 29 de janeiro, completam-se exatos quinze anos desde que Belém foi abalada por uma das maiores tragédias da construção civil em sua história recente. O desabamento do Edifício Real Class, ocorrido em 29 de janeiro de 2011, permanece como uma ferida aberta na memória da capital paraense, um marco doloroso que ceifou três vidas e provocou transformações profundas na engenharia regional.

O dia em que o silêncio foi quebrado por sirenes

Era início da tarde quando a notícia começou a se espalhar pela travessa Três de Maio: um prédio em construção, com mais de 30 andares e aproximadamente 100 metros de altura, havia desmoronado durante os retoques finais antes da entrega. O cenário que se seguiu foi de destruição absoluta – uma montanha de concreto, poeira e um silêncio perturbador rapidamente substituído pelo som estridente das sirenes de emergência.

O tenente-coronel Marco Scienza, comandante do 1º Grupamento de Bombeiros Militar na época, relembra com emoção o momento em que sua equipe chegou ao local. "Chegamos e vimos apenas os escombros. Foi um impacto enorme", recorda o oficial, destacando a dimensão da catástrofe que se apresentava diante dos olhos dos primeiros socorristas.

As vítimas e o resgate heróico

Durante o desabamento, operários ainda trabalhavam no interior da estrutura. Dois deles não conseguiram escapar:

  • José Barro, soterrado nos escombros
  • Manuel Raimundo da Paixão Monteiro, cujo corpo foi encontrado apenas alguns dias após a tragédia, sendo a última vítima recuperada

Em uma casa vizinha ao local da construção, os destroços atingiram fatalmente Maria de Jesus, conhecida carinhosamente como "Dona Maria", uma idosa que se tornou a terceira vítima fatal do acidente.

O resgate mobilizou uma força-tarefa impressionante, com mais de cem profissionais atuando incansavelmente:

  1. Corpo de Bombeiros
  2. Defesa Civil
  3. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu)
  4. Cruz Vermelha
  5. Policiais militares e civis
  6. Numerosos voluntários da comunidade

Sandro Abreu, morador da região, descreve a cena com voz ainda emocionada: "Foi desesperador. Muita gente correndo, chorando, sem entender o que estava acontecendo. O sentimento é de dor que o tempo não apaga".

As causas técnicas e as consequências judiciais

Laudos técnicos elaborados pela Universidade Federal do Pará (UFPA) apontaram um erro de cálculo estrutural como causa principal do desabamento. Segundo os especialistas, o edifício não suportou a combinação entre:

  • O peso excessivo da própria estrutura
  • A força dos ventos característicos da região
  • Falhas críticas no projeto original

Cinco anos após a tragédia, a Justiça paraense proferiu sua sentença. O engenheiro Raimundo Lobato da Silva, responsável técnico pela obra, foi condenado por homicídio culposo triplo e lesão corporal de uma quarta vítima. Sua pena foi convertida em prestação de serviços comunitários e pagamento de multa. Um segundo engenheiro denunciado, Carlos Santos de Lima, foi absolvido por insuficiência de provas.

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Pará (Crea-PA) cancelou o registro profissional de ambos os engenheiros, em uma decisão que reverberou por todo o setor da construção civil regional.

Transformações na engenharia brasileira

Segundo especialistas da UFPA, o desabamento do Real Class provocou pelo menos duas mudanças fundamentais na legislação e nas práticas da engenharia nacional:

  1. Obrigatoriedade das normas técnicas: consolidou-se o entendimento de que seguir as recomendações das normas brasileiras não é opcional, mas uma exigência legal cujo descumprimento acarreta responsabilização profissional
  2. Revisão sistemática de projetos: estabeleceu-se a necessidade e obrigatoriedade da revisão independente de projetos estruturais, independentemente da complexidade da construção

Roland Massoud, advogado que representou a construtora do Real Class, afirmou que a empresa "lamenta profundamente o ocorrido, mas seguiu colaborando com as investigações e cumpre as decisões judiciais".

Indenizações e a memória que permanece

Na esfera cível, famílias das vítimas e moradores de prédios afetados pelos escombros receberam indenizações. Dennis Verbicaro, advogado representante das famílias, destacou que "a decisão judicial reconheceu o sofrimento e a responsabilidade das empresas envolvidas".

Quinze anos depois, o local da tragédia apresenta um cenário completamente diferente. A área foi murada e hoje se encontra coberta por mato alto, um espaço vazio que contrasta com a movimentada travessa Três de Maio.

Edmilson Monteiro, cinegrafista da TV Liberal que registrou as primeiras imagens do desastre, resume o sentimento de quem testemunhou a tragédia: "É um filme que volta toda vez que eu passo por ali e vai voltar para sempre".

O desabamento do Real Class permanece como um marco na história de Belém – uma lição dolorosa sobre a importância da responsabilidade técnica, do rigor nas construções e do valor incomensurável da vida humana em todo projeto de engenharia.