Fim dos Orelhões: Casal Gaúcho e Piauiense Relembra Amor à Distância com Cartões Telefônicos
Com o anúncio de que os orelhões serão retirados das ruas de todo o Brasil a partir de janeiro, um casal que vive há mais de duas décadas juntos revive as memórias afetivas do início do relacionamento, quando dependia dos cartões telefônicos para conversar à distância. Alex, gaúcho, e Nilce, piauiense, casados há 23 anos, compartilharam como essa tecnologia simples, mas essencial, ajudou a construir sua história de amor.
Ligações Contadas e Saudades Guardadas
O administrador Alex descreve com nostalgia os momentos em que precisava comprar o cartãozinho, com suas unidades limitadas, e ficar contando o tempo durante as conversas. "Tinha que comprar o cartãozinho, com as unidades, ficar contando e ficava 'olha, tá acabando, tá acabando, tchau, beijo, beijo, te amo... vixe, acabou'. A gente usava até cair a ligação", relembra. Após a queda da chamada, restava apenas a saudade e a vontade de ouvir novamente a voz do outro, um sentimento que marcou profundamente o casal.
Nilce complementa que nem sempre tinham o cartão à disposição, o que tornava cada conversa um evento especial. "Nem sempre estávamos com o cartãozinho à disposição. [Quando ia] a gente ia na hora marcada para conversar como foi o período, os dias, os acontecimentos, era um momento de história", disse ela, destacando como essas ligações eram momentos preciosos de conexão e partilha.
A Era dos Cartões Telefônicos: Uma Geração Marcada
Os cartões telefônicos começaram a ser usados no início da década de 1990, principalmente a partir de 1992, quando a então Telebras implantou o sistema de cartões magnéticos nos orelhões. Eles se popularizaram rapidamente ao longo dos anos 1990, tornando-se um símbolo de uma época e marcando uma geração inteira.
Além da funcionalidade, os cartões traziam ilustrações, fotos, campanhas educativas, datas comemorativas, pontos turísticos e personagens, o que os transformou em objetos de interesse além das ligações. Algumas séries eram lançadas em tiragens limitadas, aumentando seu valor entre colecionadores. Um exemplo é o representante comercial Ney Armstrong, que mantém até hoje um acervo com mais de 150 cartões. "Outros colegas começaram a colecionar junto comigo e a gente chegava a trocar os repetidos e íamos montando as coleções", contou ele, evidenciando o aspecto cultural e social desses itens.
Antes dos Cartões: As Fichas Metálicas e Outras Memórias
Antes dos cartões telefônicos, os orelhões funcionavam com fichas metálicas que lembravam moedas, vendidas em bares, bancas e pequenos comércios. A dona de casa Alda Alves, de Caldeirão Grande do Piauí, também recorda essa época com carinho. "Eu sou do interior, a minha cidade é Caldeirão Grande do Piauí, e lá a gente usava orelhão, eu ligava. Vim estudar aqui [em Teresina] muito cedo e ligava para falar com a minha mãe, com meu pai", relatou.
Ela acrescenta: "A gente ficava na fila esperando as pessoas terminarem de falar, a ficha acabava e não dava tempo de terminar a conversa. Isso são lembranças boas", mostrando como essas experiências simples, mas significativas, ficaram gravadas na memória de muitos brasileiros.
O Fim de uma Era e o Legado Afetivo
A retirada dos orelhões pelas ruas do Brasil marca o fim de uma era tecnológica, mas também evoca um legado afetivo profundo. Para casais como Alex e Nilce, e para inúmeras pessoas que cresceram usando esses aparelhos, os orelhões e os cartões telefônicos representam mais do que um meio de comunicação; são símbolos de histórias de amor, amizade e família, tecidas à distância.
Essa transição tecnológica, impulsionada pela Anatel, reflete as mudanças na forma como nos conectamos, mas as memórias associadas a esses objetos continuam vivas, lembrando-nos de um tempo em que cada ligação era um momento especial, contado e esperado com ansiedade.