Se existisse uma máquina do tempo e fosse possível voltar dez anos, o discurso sobre inteligência artificial (IA) dificilmente incluía atividades de liderança entre as ameaçadas pela automação. Perder espaço para a IA era visto como algo restrito ao chão de fábrica, não aos escritórios envidraçados de onde partem as ordens. Esse cenário mudou drasticamente com a chegada dos modelos generativos, que colocaram na mira não apenas ofícios criativos, mas também grande parte do que se realiza no cotidiano corporativo.
Estudo revela percepção dos executivos
Em entrevista, Débora Emm, CEO da consultoria Inesplorato, comentou os resultados de um estudo recente que reuniu cinco empresas brasileiras — Indique, Mandalah, NewNew, Talk INC e Think Eva — para produzir um guia prático sobre adoção ética de inteligência artificial nas organizações. A pesquisa mostra que o medo de ser substituído por uma IA atravessa a hierarquia das empresas de maneira equivalente, especialmente no caso da IA generativa. Até CEOs declaram sentir-se ameaçados, pois a tecnologia interfere nas condições e no contexto do trabalho corporativo como um todo.
IA como 'chá revelação de classe social'
Perguntada se a tecnologia funcionou como um 'chá revelação de classe social' para muitos executivos, Débora respondeu: 'Sim e não. Sim, eles estão percebendo que estão sendo afetados, que o dia a dia está mudando, que as cobranças estão sendo transformadas e que existe um perigo de obsolescência no ar. Mas executivos não se percebem como trabalhadores. Quando foi a última vez que você ouviu falar de uma greve de executivos? Eles se pensam de forma individual, se identificam com o topo das hierarquias e não com a base.'
Diretrizes para adoção ética de IA
O estudo, intitulado 'Diretrizes para Adoção Ética e Estratégica de IA no Trabalho Corporativo', elenca três recomendações principais. A primeira é tratar máquinas como máquinas: é preciso parar de usar ferramentas como se fossem pessoas. Máquina não pensa, não dá conselhos, não tem autonomia nem responsabilidade como os humanos. A segunda é tratar humanos como humanos, já que historicamente os modelos de gestão foram desenhados para diminuir e reprimir tudo que é humano e ameaça a estabilidade das empresas. A terceira é priorizar problemas antigos e transversais: a adoção de IA precisa ter os problemas da sociedade no centro para que seus efeitos sejam positivos.
Uso de IA no Brasil
Uma parte do estudo, baseada em levantamento da Talk, mostra que a IA já é uma realidade massiva no Brasil: 89% das pessoas estão usando a tecnologia, contra 63% em 2024. Isso gera uma transformação nas capacidades de trabalho, com 74% das pessoas sentindo que ampliaram de alguma forma suas habilidades. No entanto, temas preocupantes precisam ser levados a sério, como a antropomorfização: 58% dos entrevistados usam a IA como amigo ou conselheiro.
Competências para o futuro
Questionada sobre as competências importantes para os profissionais dos próximos anos, Débora destacou que 'está quase virando um clichê a defesa das habilidades humanas para a era da IA, e não tenho como fugir disso.' Entre elas estão criar, ponderar com empatia, analisar o tempo de forma expandida, trabalhar de forma colaborativa e, especialmente, pensar. 'Já deu para ver como a IA generativa leva a gente para um lugar de padronização. Vai se destacar aqueles que investirem pesado na sua própria autenticidade e souberem usar a IA como uma ferramenta que abre novas formas para o exercício de criar.'



