Primeiro lançamento comercial de foguete no Brasil termina em explosão após 30 segundos
O primeiro foguete comercial a ser lançado do território brasileiro sofreu uma falha crítica apenas 30 segundos após a decolagem, resultando em sua fragmentação e explosão controlada. O incidente ocorreu no dia 22 de dezembro do ano passado, no Centro Espacial de Alcântara, localizado no estado do Maranhão, durante a missão denominada SPACEWARD.
Empresa sul-coreana e autoridades brasileiras iniciam investigação conjunta
Nesta segunda-feira (26), a empresa sul-coreana Innospace confirmou o início de uma investigação conjunta com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), órgão oficial brasileiro responsável por apurar ocorrências envolvendo veículos espaciais. O CEO da companhia, Kim Soo-jong, explicou em comunicado aos acionistas que uma análise preliminar foi realizada imediatamente após o lançamento, mas que as restrições operacionais durante o período de Natal e férias de verão no Brasil limitaram a mobilização imediata de especialistas.
O CENIPA classificou o evento como um incidente e não como um acidente, destacando que o objetivo da investigação é esclarecer os fatos com precisão técnica, sem atribuir culpa ou responsabilidade civil. A apuração incluirá a análise de dados de voo do foguete, informações de sistemas em solo e registros operacionais, com o processo podendo levar vários meses para conclusão.
Detalhes do lançamento e falha técnica
O foguete Hanbit-Nano, com 21,9 metros de altura e 20 toneladas de peso, decolou normalmente às 22h13 do horário brasileiro. O motor híbrido de 25 toneladas funcionou bem na fase inicial, registrando um marco mundial como o primeiro voo de um motor híbrido de médio a grande porte. No entanto, ao atravessar uma camada de nuvens, a comunicação com o solo foi perdida.
Logo em seguida, o foguete apresentou uma falha e se fragmentou em três ou quatro partes, caindo dentro da área de segurança pré-determinada. O Sistema de Terminação de Voo foi acionado automaticamente, provocando uma explosão controlada no impacto com o solo, seguindo protocolos internacionais acordados com a Força Aérea Brasileira.
Durante a transmissão ao vivo do lançamento, a equipe responsável exibiu a mensagem We experienced an anomaly during the flight (Experienciamos uma anomalia durante o voo), antes de interromper o sinal. O vídeo acompanhou a trajetória do foguete por pouco mais de um minuto, mostrando-o atingir Mach 1 (velocidade superior à do som) e alcançar o ponto conhecido como MAX Q, quando a força aerodinâmica atinge sua intensidade máxima.
Consequências e próximos passos
A Innospace destacou que, apesar do insucesso da missão, não houve registro de feridos nem de danos a instalações no solo. A empresa considerou os dados coletados durante o voo e em solo como um ativo tecnológico importante, que será utilizado para aprimorar o foguete Hanbit e aumentar a segurança de lançamentos futuros.
Parte dos destroços já foi recuperada e será submetida a análises técnicas detalhadas. A carga útil e o satélite do cliente estão cobertos por seguro, e a companhia afirmou que o episódio não deve afetar contratos futuros.
No entanto, ainda não há uma data definida para novos lançamentos, pois o cronograma dependerá dos resultados finais da investigação e da definição das melhorias técnicas necessárias. Após a conclusão das correções, a empresa precisará obter novamente a autorização de lançamento junto às autoridades competentes antes de retomar as operações.
Contexto histórico do Centro Espacial de Alcântara
O Centro de Lançamento de Alcântara é considerado uma localização privilegiada para lançamentos espaciais devido à sua proximidade com a linha do Equador. Essa posição geográfica permite que os foguetes gastem menos combustível e tenham custos operacionais reduzidos, além de oferecer um amplo leque de inclinações orbitais.
Entretanto, a base enfrentou desafios significativos nas últimas décadas, incluindo um grave acidente ocorrido há 22 anos, quando um foguete VLS-1 explodiu durante os preparativos para lançamento, resultando na morte de 21 civis. Questões fundiárias envolvendo comunidades quilombolas que habitavam a região antes da instalação da base também geraram conflitos que se arrastaram por anos.
A missão Spaceward representava um passo importante na retomada das atividades comerciais no local, coordenada pela Força Aérea Brasileira e pela Agência Espacial Brasileira, com o objetivo de levar ao espaço cinco satélites e três dispositivos para pesquisas desenvolvidas por instituições do Brasil e da Índia.