Estudantes do interior de SP retornam ao Brasil após três dias retidos nos EUA
Um grupo de brasileiros formado por 14 estudantes e uma professora de Lençóis Paulista, no interior de São Paulo, viveu uma experiência angustiante ao ficar retido por três dias no Aeroporto Internacional de Dallas–Fort Worth, no Texas, Estados Unidos. A situação ocorreu devido a cinco cancelamentos consecutivos de voos, causados por uma intensa tempestade de inverno que atingiu a região.
Condições precárias e descaso relatados
Em entrevista ao g1, Nicoly dos Santos Anjos, de 15 anos, detalhou como foram os dias de espera no aeroporto. A jovem destacou que a dificuldade para se alimentar e a falta de um local adequado para dormir foram os principais obstáculos enfrentados pelo grupo.
"Só tinha comida que não era saudável. Tinha horários que as lanchonetes e os fast-foods fechavam e demoravam para abrir, sobrando apenas as comidas de máquina", relatou a estudante.
Ela acrescentou sobre as condições de sono: "O sono também estava difícil devido ao lugar que teríamos que dormir, no chão ou nas cadeiras, e a luz forte no rosto. Mal conseguíamos dormir. Na primeira noite, dormi por apenas quatro horas e, na segunda noite, por três horas. O lugar era desconfortável e demorávamos para conseguir dormir".
Resposta da companhia aérea e mobilização
A companhia aérea American Airlines teria oferecido apenas um voucher de US$ 12 por pessoa para alimentação, sem garantir hospedagem adequada ou assistência durante a espera. Segundo a agência de intercâmbio Volpe & Lima, os estudantes ficaram concentrados no portão A21 do aeroporto, dormindo em cadeiras e sem condições mínimas de descanso e higiene.
Em nota ao g1, a American Airlines informou que, nos casos em que os cancelamentos são causados por fatores fora de seu controle, como condições climáticas, os passageiros são responsáveis por despesas como hospedagem e alimentação. A empresa afirmou que agentes podem auxiliar na busca por hotéis, mas não detalhou se isso foi oferecido ao grupo.
Após a repercussão do caso, que ganhou atenção nacional e internacional, um voo foi disponibilizado para os alunos. A resolução contou com uma força-tarefa envolvendo a Embaixada do Brasil em Houston, apoio de autoridades municipais, estaduais e federais, mobilização nas redes sociais, colaboração de host families americanas, comunicadores digitais e os esforços da agência e dos pais.
Retorno ao Brasil e novo susto
O embarque de Dallas para o Brasil ocorreu na madrugada de quarta-feira (28), por volta de 0h19 no horário local. O avião desembarcou na tarde do mesmo dia no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, por volta das 13h10. O grupo seguiu de van até Lençóis Paulista, onde chegou por volta das 21h30.
Nicoly relatou um novo susto durante o voo: a aeronave apresentou problemas mecânicos relacionados ao gelo, mas, após conserto, a viagem foi autorizada. "Após embarcarmos, a energia do avião caiu por causa do gelo. Ficamos mais de uma hora esperando o mecânico arrumar. O alívio surgiu quando anunciaram que o voo iria acontecer", declarou.
Preocupação das famílias e reflexões
Para Lais Cardoso, mãe de Nicoly, de 37 anos, a volta do grupo seria tranquila inicialmente, mas a preocupação aumentou com o passar do tempo. "No início, imaginei que fosse apenas um atraso que logo se resolveria. Depois que passou de 24 horas, foi ficando desconfortável, sem poder estar lá! Agora, imagine seu filho três dias em um aeroporto, sem dormir direito, sem descansar, sem um banho adequado, sem saber quando volta para o Brasil?", explicou.
A mãe afirmou que tentaria uma alternativa com outra agência caso a companhia aérea não conseguisse trazer os estudantes de volta. "Prometi a ela que, se o voo continuasse sendo cancelado, eu mesma iria até lá e a levaria para o Brasil por outra agência", disse.
Para a adolescente, passar três dias no aeroporto foi um período de descaso e abandono. "Não cheguei a me sentir ameaçada, mas achava um absurdo a forma como fomos negligenciados durante o período em que estávamos lá. Tudo que queríamos era voltar para casa", comentou. "A sensação de poder voltar para o Brasil é libertadora", comemorou.
Apesar da experiência difícil, Nicoly destacou que a convivência com a host family durante o intercâmbio foi boa e confortável. O grupo havia chegado aos Estados Unidos no dia 3 de janeiro, onde permaneceu por três semanas antes do incidente no aeroporto.