Vistoria no Hospital São Lucas termina em confusão com intervenção policial em Vitória
Uma fiscalização realizada pelo Conselho Regional de Enfermagem do Espírito Santo (Coren-ES) no Hospital São Lucas, localizado em Vitória, culminou em uma situação de tensão e confusão nesta sexta-feira (23). A ação tinha como objetivo principal investigar uma série de denúncias graves envolvendo sobrecarga de trabalho e assédio moral contra profissionais da enfermagem. No entanto, a vistoria foi abruptamente interrompida, exigindo a presença da Polícia Militar para conter os ânimos.
Denúncias de coação e medo de demissão entre profissionais
De acordo com informações do Coren-ES, existem aproximadamente 200 denúncias relacionadas às condições de trabalho na unidade hospitalar. Uma técnica de enfermagem, que preferiu manter o anonimato por temer represálias e demissão, revelou que os funcionários são constantemente pressionados a assumir jornadas extras. “A gente trabalha sob coação o tempo todo, principalmente para fazer extras, porque não tem funcionário suficiente, porque o salário que eles pagam é bem abaixo do salário de um técnico de enfermagem”, afirmou a profissional.
Ela destacou ainda que o receio de perder o emprego impede muitos colegas de formalizar queixas ou se identificarem publicamente, criando um ambiente de intimidação e silêncio.
Fiscalização impedida e acusações de intimidação
Para apurar as alegações, o Conselho agendou uma reunião com a direção do hospital e, simultaneamente, iniciou uma vistoria nos setores da instituição. Contudo, segundo relato do presidente do Coren-ES, Wilton José Patrício, a equipe de fiscais foi impedida de continuar o trabalho. “Uma das diretoras do hospital, que não estava participando da reunião, impediu literalmente os nossos fiscais de entrarem nos setores e fazer a fiscalização, aos gritos, e também dizendo para os profissionais de enfermagem que, caso eles dessem algum tipo de informação para os fiscais, eles poderiam sofrer sérias consequências”, explicou Patrício.
Hospital nega impedimento e cita risco assistencial
Em resposta, a responsável técnica pela enfermagem do Hospital São Lucas, Silvane Damasceno, negou veementemente que tenha havido qualquer obstrução à fiscalização. Ela argumentou que a situação ocorreu devido à retirada de profissionais de setores críticos, como a UTI, o que poderia comprometer a assistência aos pacientes. “Equipe médica, direção técnica foi acionada, porque os pacientes precisavam de assistência. Aceitamos e respeitamos a questão da fiscalização, mas o risco assistencial, a sociedade também é um dos nossos critérios essenciais”, afirmou Damasceno.
Ela também rejeitou as acusações de assédio moral e sobrecarga como práticas institucionais, declarando: “Nego, nego sim. Porque não é uma prática institucional, não é uma prática”.
Acusação de agressão e versões conflitantes
O hospital ainda alegou que a diretora-geral da unidade foi empurrada por um membro do conselho durante o incidente. “Ele realmente empurrou. Nós temos testemunhas, temos forma de provar isso e foi algo que assustou muito”, disse Silvane Damasceno. A Polícia Militar foi acionada, e a fiscalização não pôde ser retomada. Por outro lado, o Coren-ES negou qualquer tipo de agressão à diretora e afirmou que não houve orientação para que todos os técnicos de enfermagem deixassem a UTI.
Secretaria de Saúde afirma não ter recebido denúncias formalmente
Em nota oficial, a Secretaria da Saúde (Sesa) do Espírito Santo informou que não recebeu formalmente as denúncias citadas pelo Coren-ES. A pasta ressaltou que a unidade dispõe de canais oficiais para registro e apuração de queixas e que a estrutura e equipamentos do hospital estão adequados às normas técnicas. A Sesa também enfatizou que a atuação do Conselho é bem-vinda, desde que não comprometa a assistência aos pacientes, e orientou a profissional que teria sido agredida a registrar um boletim de ocorrência.
O caso expõe tensões significativas no ambiente de saúde pública, levantando questões sobre condições de trabalho, transparência nas fiscalizações e a proteção dos direitos dos profissionais da enfermagem em Vitória.