Mergulhadores localizam navio Tutoya, naufragado na Segunda Guerra no litoral de São Paulo
Navio Tutoya da Segunda Guerra é encontrado por mergulhadores em SP

Mergulhadores encontram navio Tutoya, naufragado na Segunda Guerra, no litoral de São Paulo

Um grupo de mergulhadores apaixonados por histórias marítimas realizou uma descoberta histórica no litoral de São Paulo: os destroços do navio Tutoya, que naufragou após ser atacado por um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial. A embarcação foi localizada entre as cidades de Peruíbe e Iguape, revelando um capítulo esquecido do conflito global.

Uma busca meticulosa no fundo do mar

O marinheiro Clayton Aloise, conhecido entre os pescadores da região, desempenhou um papel crucial na busca, registrando coordenadas fornecidas por eles. “É uma história que está no fundo do mar. Muita gente, até hoje, não fazia nem ideia que isso existia”, enfatizou Clayton, destacando a importância do achado. A instrutora de mergulho Tatiana Mello iniciou a pesquisa após ler sobre o Tutoya em um jornal, pois havia suspeitas sobre sua localização, com documentos da Marinha citando Iguape.

Com base nas informações coletadas, o grupo, incluindo o profissional de TI Marco Aurélio Bafi, partiu da Serra do Guaraú, em Peruíbe. A busca não foi fácil, ultrapassando duas horas sem resultados no sonar. No entanto, na terceira tentativa, um relevo diferente no fundo do mar foi detectado. “Jogamos uma boia para ter uma referência fora da água e aí começamos a fazer a busca. A gente conseguiu realmente se aproximar e ver uma marca, uma imagem bem diferente do fundo, grande”, relatou Tatiana.

Confirmação e emoção da descoberta

Para confirmar a identidade dos destroços, os mergulhadores usaram equipamentos para captar imagens e tirar medidas, comparando com dados técnicos do Tutoya. O instrutor de mergulho Luiz Flório Neto explicou que o grupo já tinha informações sobre dimensões e características da embarcação. Quando os dados bateram, a emoção foi intensa. “Quando a gente saiu da água e pôde compartilhar com eles: ‘Gente, tudo bateu’. As medidas bateram, a pesquisa bateu, a gente está mergulhando no Tutoya, é emocionante”, disse Tatiana. Marco complementou: “É indescritível o sentimento de alegria de fazer parte de uma história que aconteceu antes de eu nascer”.

História do Tutoya: da construção ao naufrágio

Construído na Inglaterra em 1913, o navio inicialmente foi batizado de Mitcham, depois renomeado para Uno em 1923, e finalmente ganhou o nome Tutoya em 1929, em homenagem a uma cidade do Maranhão. Durante a Segunda Guerra Mundial, a navegação no litoral brasileiro mudou devido à ameaça de submarinos. “Por causa da ação dos submarinos, os navios navegavam às escuras e próximo ao litoral para se proteger”, explicou o pesquisador de naufrágios Maurício Carvalho.

Tatiana detalhou que as embarcações usavam carvão, cuja fumaça preta era invisível à noite, e navegavam com luzes apagadas. Apesar dessas precauções, o Tutoya foi abordado pelo submarino alemão 513. “Numa madrugada, o Tutoya foi abordado em frente ao litoral de Peruíbe e mandou que eles acendessem as luzes para identificação. O comandante, acreditando que era um navio de patrulha, acendeu as luzes e logo depois foi atingido por um torpedo”, contou Maurício. O navio naufragou em 1º de julho de 1943, resultando em sete mortes. “A descoberta é fundamental para que a gente possa resgatar esses heróis de guerra brasileiros que são tão pouco falados”, afirmou o pesquisador.

Um museu congelado no fundo do mar

Os destroços do Tutoya oferecem uma visão única da história. Tatiana descreveu a embarcação como um “museu congelado”, com tudo intacto desde o naufrágio. “A impressão que dá é que a proa está separada do restante do navio. Tem muito ferro ali retorcido. Então, a emoção bateu porque provavelmente é onde entrou o torpedo”, disse ela. Isso permite que mergulhadores vivenciem um pedaço da Segunda Guerra preservado no tempo.

Visitação e importância do achado

Maurício Carvalho desenhou um esboço da embarcação para orientar mergulhadores, destacando que o navio está protegido por leis brasileiras, proibindo a remoção de qualquer item. “Agora, com a sua identificação, ele vira um ponto que vai ser utilizado, por exemplo, pela operadora Novos Mares para levar mergulhadores interessados em contar essas histórias”, explicou. No entanto, os mergulhos são apenas contemplativos, com foco em observação e filmagem.

Luiz Flório Neto ressaltou a acessibilidade do Tutoya: “A grande vantagem dele é o fato de ele estar a aproximadamente uma hora e meia de Peruíbe e, sobretudo, a 21 metros de profundidade. Então, ele está muito raso. Isso acaba facilitando muito que um mergulhador até com um pouco menos de experiência possa contemplá-lo”. Em contraste, outra embarcação torpedeada no litoral paulista, perto de Ilhabela, está a quase 60 metros, exigindo mergulhos técnicos mais complexos.

Esta descoberta não apenas enriquece o patrimônio histórico marítimo do Brasil, mas também oferece uma oportunidade educativa e turística única, conectando o presente com um passado marcante da Segunda Guerra Mundial.