Licitação para ônibus do Grande Recife é adiada novamente após mais de uma década de espera
O Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano (CTM) adiou mais uma vez a licitação para que empresas operem as linhas de ônibus da Região Metropolitana do Recife. Esta medida mantém o sistema de transporte público sem contratos definitivos com metas, deveres e obrigações formais para as operadoras, situação que persiste desde 2013, quando o processo teve início ainda na gestão do ex-governador Eduardo Campos (PSB).
Sistema opera em regime precário há mais de dez anos
Na atual gestão da governadora Raquel Lyra (PSD), o certame já foi adiado duas vezes e segue sem previsão para conclusão. Atualmente, muitas linhas são operadas por empresas permissionárias, ou seja, sem contrato licitado. Na prática, isso significa que atuam sob regime de permissão, considerado mais precário do que a concessão formalizada por meio de licitação.
Enquanto a definição não acontece, passageiros enfrentam problemas diários como superlotação, demora e veículos em más condições. "É terrível, o transporte demora muito, não têm conforto nenhum os ônibus. Tem que ir em pé, ninguém dá assento", relatou a dona de casa Isabela dos Santos, que depende do sistema regularmente.
Licitação prometia reorganização com investimento bilionário
A licitação foi apresentada há mais de dez anos como solução para reorganizar o sistema, com previsão de investimento de R$ 15 bilhões e divisão da operação em sete lotes. Apenas dois chegaram a ter contratos assinados, ainda em 2013. Naquele ano, as empresas Conorte e Metropolitana venceram a disputa para operar, respectivamente, os corredores Norte-Sul, com BRTs de Igarassu ao Centro do Recife, e Leste-Oeste, do bairro do Derby a Camaragibe.
Especialista alerta para insegurança jurídica e falta de investimentos
Para o presidente do Instituto de Trânsito e Mobilidade Sustentável, Ivan Carlos Cunha, a ausência de contratos definitivos gera insegurança jurídica e dificulta melhorias no sistema. "Primeiro, [gera] uma insegurança até para a empresa operadora, porque a permissão tem um caráter de precariedade e também impede novos investimentos, novas formas de delegação do serviço de transporte público coletivo para um operador que possa, por exemplo, administrar os terminais, fazer oferta de equipamentos mais modernos, e isso termina prejudicando toda a população", explicou Ivan.
Ainda de acordo com o presidente do instituto, a licitação é apenas parte da solução e o modelo precisa ser atualizado. "É um processo complexo porque envolve um estudo que precisa, talvez, ser atualizado para poder contemplar, inclusive, todas as modificações que ocorreram ao longo desses 20 anos, novas oportunidades, novas opções de transporte pela população. [...] A licitação em si não é a panaceia que irá resolver os problemas do transporte. É um elemento. Um dos maiores fatores hoje em dia é o custo desse serviço", disse.
Frota envelhecida preocupa Ministério Público
Uma apuração do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), divulgada em dezembro de 2025, constatou que cerca de um terço dos ônibus que circulam no Grande Recife são velhos e já passaram da vida útil. Segundo o órgão, em algumas empresas, mais da metade dos veículos se encontram nessa situação.
Ainda segundo o ministério, parte significativa da frota opera acima do tempo recomendado, o que impacta diretamente na qualidade do serviço. Entre os problemas relatados, estão falhas mecânicas, desconforto e insegurança para os passageiros. O MPPE fez uma série de recomendações ao Grande Recife Consórcio de Transporte exigindo providências para que os coletivos sejam substituídos.
Segundo a instituição, se a frota não for renovada, o percentual de ônibus "fora da validade" chegará a 70% até o fim de 2026.
Consórcio alega dependência de órgãos de controle
Procurado pela TV Globo, o Grande Recife Consórcio informou que ainda não há data para a nova licitação, porque o processo depende de etapas de verificação por órgãos de controle. Para quem depende do sistema diariamente, a principal cobrança é por mais veículos em circulação.
A aposentada Enide Bonifácio resume a expectativa dos usuários: "Botar mais ônibus para ver se atende à população". A frota de ônibus estacionada em terminal integrado do Grande Recife ilustra os desafios enfrentados pelo sistema, que continua aguardando uma solução definitiva após mais de uma década de adiamentos.



