Fim do passe livre estudantil em Sorocaba: reajuste na tarifa de ônibus começa a valer
Fim do passe livre estudantil em Sorocaba: reajuste começa

Fim do passe livre estudantil em Sorocaba: reajuste na tarifa de ônibus começa a valer

O fim do passe livre estudantil em Sorocaba, no interior de São Paulo, entrou em vigor na última sexta-feira, dia 30. Com a medida, os estudantes da cidade voltam a pagar a tarifa integral de R$ 2,65 por passagem de ônibus, o que representa um impacto direto no orçamento de aproximadamente 50 mil alunos que utilizavam o benefício.

Segundo especialistas em educação, esse gasto adicional pode dificultar significativamente a permanência dos jovens nos estudos, tanto no ensino básico quanto no superior. Movimentos sociais já se organizam para tentar um diálogo com a prefeitura, buscando reverter a decisão ou encontrar alternativas que amenizem o impacto.

Impacto financeiro e dilema dos estudantes

O estudante Bruno Fusco Beltrami compartilha sua realidade: "Eu estudo em período integral, das 8h até as 18h, e moro longe da faculdade então fico direto. E esse reajuste dificulta muito. Tem gente que até consegue arrumar um emprego noturno, mas fica difícil conciliar com os estudos". Sua fala reflete um cenário preocupante, corroborado por dados do Serasa sobre a situação financeira dos universitários brasileiros.

  • 66% dos universitários estão endividados e já cortaram itens básicos para pagar mensalidades.
  • 48% tiveram que trancar o curso por não conseguir pagar as mensalidades em dia.
  • 85% são os responsáveis sozinhos pelas despesas dos estudos.

Alertas de especialistas sobre evasão escolar

Fábio Fernandes, mestre em educação, alerta que muitos estudantes serão forçados a fazer escolhas difíceis entre pagar contas, se alimentar ou continuar os estudos. Ele explica: "Existe um abismo financeiro onde as necessidades básicas, como moradia, transporte, alimentação e vestimenta, funcionam como âncoras. Se o preço do aluguel sobe ou a tarifa do ônibus aumenta, o orçamento, que já é no limite, colapsa".

Fernandes completa: "O aluno se vê em um dilema cruel: ou paga o deslocamento para chegar na aula ou garante a refeição do dia. Nisso, o estudante acaba abandonando o curso, não por falta de talento, mas porque a logística de sobrevivência se tornou financeiramente insustentável". A medida, segundo ele, pode empurrar os mais pobres para fora do sistema educacional.

Consequências sociais e culturais

Para a socióloga Marcélia Valente, a cobrança da tarifa não afeta apenas a relação dos jovens com o ensino, mas também limita o acesso à cultura e ao lazer. Ela destaca: "Nós vemos claramente que os interesses econômicos estão sobrepostos aos sociais. Isso prejudica a nossa dignidade urbana, do acesso aos bens culturais. Porque, além de impedir que o aluno frequente a escola, impede que ele acesse lazer, cultura e práticas esportivas".

Contexto e reações ao fim do benefício

O passe livre estudantil em Sorocaba havia começado a valer em janeiro de 2025, mas a prefeitura, que acumula uma dívida de mais de R$ 700 milhões, decidiu encerrar o benefício alegando dificuldades financeiras. A medida gerou forte reação da comunidade e foi parar na Câmara de Vereadores.

No início deste ano, uma audiência pública reuniu estudantes, pais e representantes do poder público para discutir o tema. Durante o evento, foi entregue um abaixo-assinado com mais de 1.700 assinaturas contra o fim do passe livre. A principal preocupação é que a volta da cobrança pese no bolso dos estudantes e contribua para um aumento na evasão escolar, agravando um problema já existente no país.

A situação em Sorocaba serve como um alerta para outras cidades que enfrentam dilemas similares entre políticas públicas de transporte e educação, destacando a necessidade de equilibrar questões fiscais com o direito fundamental ao acesso à educação.