Nordeste assume liderança trágica em mortes no trânsito brasileiro
Pela primeira vez na história, o Nordeste se tornou a região com o maior número de mortes no trânsito do Brasil. Em 2024, foram registrados 11.894 óbitos na região, superando os 10.995 casos do Sudeste, que até então era a líder nessa triste estatística. Os dados são parte de um estudo realizado pela organização Vital Strategies, com base em informações do Ministério da Saúde, cobrindo uma série histórica desde 2010.
Panorama nacional preocupante
No total, o Brasil contabilizou 37.150 mortes no trânsito em 2024, representando um aumento de aproximadamente 6,5% em relação aos 34.881 casos do ano anterior. Este é o número mais elevado desde 2016, quando 37.345 pessoas perderam a vida em acidentes de trânsito. A comparação entre as frotas regionais acende um alerta entre especialistas: enquanto o Sudeste possuía cerca de 59 milhões de veículos cadastrados em dezembro de 2024, o Nordeste contava com apenas 22,3 milhões, conforme dados da Senatran.
Taxas de mortalidade revelam disparidades regionais
Quando analisada a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes, a região Centro-Oeste apresenta o maior indicador, com 24,5 mortes, mantendo uma liderança que já existia em anos anteriores. Norte e Nordeste exibem índices semelhantes, de 21 e 20,8 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente. O Sudeste, por sua vez, possui a menor taxa, com 12,4.
Motociclistas como fator crucial no Nordeste
Os responsáveis pela pesquisa destacam que as mortes de motociclistas – tanto condutores quanto passageiros – foram determinantes para inflar as estatísticas no Nordeste. Conforme dados do Ministério da Saúde, 6.116 pessoas em motos morreram em acidentes na região, número 60% superior aos 3.820 casos registrados no Sudeste. No Norte e Nordeste, mais da metade dos óbitos no trânsito envolveram motocicletas, com percentuais de 53% e 51,4%, respectivamente, enquanto no Sudeste esse índice foi de 34,7%.
Dante Rosado, mestre em engenharia de transporte e coordenador do programa de segurança viária da Vital Strategies no Brasil, explica: "Em 2010, o Nordeste tinha uma quantidade de mortes de motociclistas semelhante à do Sudeste, com cerca de 3.500 casos. Mas o Sudeste manteve o patamar e o Nordeste quase dobrou." Rosado ressalta que a motocicleta é um veículo inseguro por natureza, e o risco aumenta significativamente quando combinado com infraestrutura viária deficiente e fiscalização de velocidade insuficiente.
Infraestrutura precária e desafios urbanos
O Nordeste concentra seis das doze rodovias classificadas como péssimas em uma pesquisa da CNT publicada em dezembro passado, que avaliou pavimento, sinalização e geometria das estradas. O problema, no entanto, não se restringe às rodovias. O especialista da Vital Strategies aponta que a situação é crítica também nas vias urbanas e na zona rural, onde é comum observar famílias inteiras utilizando motos com capacidade limitada para apenas duas pessoas.
Resposta governamental e políticas públicas
O governo federal afirma adotar uma abordagem ampla e preventiva para enfrentar a violência no trânsito, atuando desde a formação de condutores até a fiscalização e a melhoria da infraestrutura viária. Em nota, o Ministério dos Transportes declarou: "A estratégia combina educação, incentivo à regularização de motoristas e estímulo a comportamentos responsáveis como elementos centrais para salvar vidas e reduzir sinistros em todas as regiões do país."
Entre as ações recentes citadas pela pasta estão o programa CNH Brasil, que facilita o acesso à Carteira Nacional de Habilitação, e a Medida Provisória do Bom Condutor, que garante renovação automática da habilitação para motoristas sem infrações registradas nos últimos doze meses. O ministério destacou ainda que o Brasil ainda convive com mais de 20 milhões de pessoas dirigindo sem carteira de habilitação, e que trazer esses motoristas para a legalidade é um passo crucial para um trânsito mais seguro.
Especialistas apontam caminhos para redução da letalidade
Os especialistas ouvidos pela reportagem enumeraram alternativas essenciais para diminuir a mortalidade no trânsito:
- Melhoria no transporte público, que tem perdido passageiros para as motocicletas
- Investimentos robustos em infraestrutura viária
- Fortalecimento da fiscalização de velocidade
- Fiscalização rigorosa de motociclistas sem capacete
Diogo Lemos, coordenador-executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, argumenta que os dados refletem escolhas estruturais adotadas por políticas públicas precárias de trânsito: "Tem faltado compromisso com segurança viária. É preciso atuação nacional para se chegar ao pequeno município, com grande ação de nível estadual. Não basta investir só em asfalto, mas em infraestrutura e fiscalização."
Planos nacionais e iniciativas em andamento
O Ministério dos Transportes cita o Pnatrans (Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito) como uma política nacional fundamental, que propõe atuação integrada entre gestores de trânsito e órgãos do Sistema Nacional de Trânsito. A meta é reduzir em pelo menos 50% o índice nacional de mortos no trânsito por grupo de habitantes até 2030, tomando como referência os dados de 2020.
A pasta também mencionou a elaboração do Guia de Gestão de Velocidades no Contexto Urbano pela Senatran, que reúne boas práticas nacionais e internacionais para combater o desrespeito aos limites de velocidade e promover soluções de engenharia e fiscalização adequadas. Quanto às mortes envolvendo motociclistas, o governo federal citou a criação da Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, a Conferência Nacional de Segurança no Trânsito e a elaboração do Programa Nacional de Segurança de Motociclistas, que terá como base o Pnatrans – embora este último ainda não tenha sido concluído, conforme previsto inicialmente para o ano passado.