Águas de bicas em Piracicaba estão poluídas e impróprias para consumo, alerta Semae
Águas de bicas em Piracicaba estão poluídas e impróprias

As águas das bicas de Piracicaba, no interior de São Paulo, estão poluídas e impróprias para consumo humano ou animal, conforme alerta do Serviço Municipal de Água e Esgoto (Semae). A contaminação do solo com fezes de animais, matéria orgânica e resíduos sólidos comprometeu a qualidade da água que aflora em todas as sete bicas da cidade.

Como ocorre a contaminação?

De acordo com o biólogo Ivan Canale, do Semae, a água da chuva escoa pela superfície urbana, carregando microrganismos e poluentes que se infiltram no solo. Como o lençol freático está inserido na área urbana, essa infiltração atinge a água subterrânea, contaminando-a. “Tem toda a sujeira que tem na superfície do solo. Tem fezes de animais, matéria orgânica, resíduos sólidos, que a gente sabe que tem na cidade, e aí acaba infiltrando no solo. O lençol de água está dentro da área urbana, e essa infiltração atinge o lençol de água e vai contaminar”, explicou Canale.

Mesmo que o solo filtre parcialmente, as bactérias, devido ao seu tamanho reduzido, conseguem atingir a água. “Quando esse lençol aflora, que no caso é [pela] bica, a água que sai vai estar com as impurezas que acabaram infiltrando no solo”, completou o biólogo.

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Água potável deve ter zero contaminação

O biólogo destacou que a água para consumo humano deve apresentar zero coliformes totais e zero Escherichia coli (E. coli). Os cientistas não consideram um nível seguro de contaminação; apenas classificam a amostra como “com presença de coliformes” ou “segura para consumo”.

Água da torneira é mais segura

Apesar do alerta, muitos moradores continuam buscando água nas bicas para beber e cozinhar. Tatiane Leal, de 57 anos, consome a água da bica do bairro Santa Olímpia desde que nasceu e nunca teve problemas de saúde. “A minha mãe só toma essa água. Inclusive, quando a gente vai à praia, ela leva o galão dessa água, porque ela não toma água de torneira”, relata.

No entanto, o biólogo Ivan Canale rebate essa percepção. Ele explica que, diferentemente da água da bica, a água da torneira passa por tratamento com cloro e está apta para consumo. “É muito pior você tomar água da bica. Isso a gente sabe por conta da questão analítica mesmo. A água da torneira passa por controle de qualidade, por análise. Ela tem todos os requisitos de uma água para consumo humano. A água da bica não tem. Então, eu não tenho dúvida que a água de torneira está em plenas condições de consumo. A água da bica está fora do padrão, não deve ser consumida”, afirmou.

Todas as bicas estão proibidas

Em outubro, já havia sido confirmado que cinco bicas públicas monitoradas pelo Semae estavam contaminadas por coliformes fecais. Agora, em nova análise divulgada nesta quinta-feira (16), constatou-se que as sete bicas da cidade – ou seja, todas – apresentam água imprópria para consumo. O Semae realiza o monitoramento semanalmente desde 1993. O órgão não pôde confirmar desde quando há indícios de contaminação, mas Ivan Canale, que realiza essas análises desde 2001, afirma que a presença da bactéria em algumas bicas é observada desde o início de seu trabalho.

Apesar da contaminação, as bicas não serão fechadas por questões ambientais, já que a autarquia não pode alterar o curso d’água. Ivan ressalta que a água das bicas não contém cloro e não passa por nenhum tratamento, o que favorece a proliferação de bactérias. “Além da contaminação, elas não têm cloro. O cloro é a principal proteção da água para a saúde das pessoas. Então, a gente sempre recomenda o consumo de água tratada, clorada. A água da bica não tem cloro, por isso que as bactérias proliferam”, explicou.

Riscos à saúde

O médico infectologista Tufi Chalita alerta que quem consumir essa água estará exposto a parasitas, podendo desenvolver micoses, diarreias, além de comorbidades virais e bacterianas. “Os riscos são múltiplos, não só a questão da higiene, ou seja, eu estou tomando uma água em que tem restos de fezes naquele lugar. Então, é sujo. Normalmente a pessoa está buscando aquela água, achando que aquilo é uma água mineral, e é, mas infelizmente ela está contaminada, ela está proibida para uso humano”, explicou o profissional.

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Como a análise é feita?

A EPTV, emissora afiliada da TV Globo, acompanhou o processo de análise da água. Uma vez por mês, a equipe do Semae coleta amostras de aproximadamente 100 ml em cada uma das sete bicas e as leva ao laboratório. As amostras são aquecidas em um equipamento semelhante a uma estufa. “Quando a amostra fica incolor, significa que há ausência tanto de coliformes totais quanto de E. coli. Caso a amostra apresente uma coloração amarelada, significa que temos coliformes totais na amostra. Se eu quiser diferenciar para saber se ela tem a E. coli, eu preciso colocar na luz UV. A fluorescência azul indica que temos bactérias coliformes totais E. coli”, detalhou Ivan Canale.

Para mais informações, acompanhe as notícias da região no g1 Piracicaba.