David Silver: o cientista que quer criar uma IA que aprende sozinha
David Silver: a missão de criar uma IA que aprende sozinha

O cenário global da inteligência artificial acaba de ganhar um de seus capítulos mais ambiciosos. A Ineffable Intelligence, startup sediada em Londres, captou 1,1 bilhão de dólares em uma rodada liderada pela Sequoia Capital e pela Lightspeed Venture Partners, com aportes do Google, da Nvidia e do governo britânico — a maior captação em estágio inicial já registrada por uma empresa europeia. Mesmo sem produto lançado, a companhia carrega uma avaliação de 5,1 bilhões de dólares.

À frente dela está David Silver, que deixou silenciosamente a DeepMind, laboratório de pesquisa em IA de ponta do Google, no final de 2025 para se dedicar ao que descreve como “o trabalho de sua vida”. A proposta da Ineffable é ir além da era atual dos Grandes Modelos de Linguagem (LLM). Silver acredita que os LLMs carregam uma limitação estrutural: por dependerem do conhecimento humano existente como insumo, estão inevitavelmente circunscritos aos limites desse mesmo conhecimento.

Em vez disso, a empresa aposta na criação de um “superaprendiz” — um sistema fundado em aprendizado por reforço capaz de descobrir habilidades e saberes a partir de suas próprias experiências e interações, sem precisar de bases de dados produzidas por humanos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Trajetória de um pioneiro

Para entender o peso dessa aposta, é preciso conhecer quem a faz. Silver não chegou a essa convicção pela teoria — chegou pela prática, ao longo de uma trajetória construída projeto a projeto na fronteira do impossível. Antes de se tornar um dos cientistas de computação mais reverenciados de sua geração, começou sua carreira longe dos grandes laboratórios: ao lado de Demis Hassabis, foi cofundador e CTO da Elixir Studios, uma desenvolvedora de videogames londrina que funcionou como um primeiro laboratório para suas ideias sobre sistemas que aprendem pela interação com o mundo.

Quando Hassabis fundou a DeepMind em 2010, Silver entrou como consultor e logo integrou a equipe em caráter definitivo. Por mais de uma década na empresa — adquirida pelo Google em 2014 —, tornou-se o principal nome em pesquisas de aprendizado por reforço. Em 2016, liderou o AlphaGo, primeiro sistema a derrotar um campeão mundial no jogo Go, considerado por décadas inacessível à computação por sua complexidade combinatória.

Conquistas marcantes

Em seguida, coordenou o AlphaZero, que dominou xadrez, Go e shogi jogando apenas contra si mesmo, sem nenhum conhecimento prévio das regras, e o AlphaStar, que alcançou nível de grão-mestre em StarCraft II. Contribuiu ainda para o AlphaFold, que transformou a biologia ao prever estruturas proteicas com precisão inédita, e para o desenvolvimento do modelo Gemini.

É esse histórico que confere densidade à tese da Ineffable. O AlphaZero já havia demonstrado que sistemas treinados sem dados humanos não apenas alcançam o nível humano — eles o ultrapassam. Silver, agora também professor na University College London, quer provar que esse princípio pode ser levado além dos tabuleiros de jogo e aplicado à inteligência em seu sentido mais amplo.

A verdadeira superinteligência, em sua visão, não virá de modelos que imitam a humanidade com mais precisão, mas de sistemas que aprendem a transcendê-la por conta própria.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar