Brasileira 'Legalmente Loira' é pós-doutoranda em astrofísica na NASA
Blush bem marcado, jaqueta e sapatos rosa, cabelo impecavelmente escovado e sombra de glitter, mesmo de manhã. Seria a volta de Elle Woods, de Legalmente Loira? Bem, a diva em questão é basicamente um clone da cantora Sabrina Carpenter. Estamos falando de Clary do Ó, brasileira de 28 anos que é pós-doutoranda em Astrofísica na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e trabalha em um laboratório da NASA.
“Sempre fui aquela criança perua, sabe? Minha mãe me inspirou a gostar de moda, me mostrando filmes tipo Diabo Veste Prada. Eu ia à loja da Swarovski no shopping, olhava para aquele teto todo brilhante, e pensava: meu Deus, são estrelinhas! Acho que o meu amor pelo espaço tem a ver com o meu amor por brilho”, conta, rindo.
Clary pesquisa exoplanetas — aqueles que ficam fora do nosso Sistema Solar, orbitando uma estrela que não é o Sol. Por ser um ramo relativamente recente da ciência (a primeira detecção de um planeta do tipo ocorreu apenas em 1995), ela sequer sabia da existência dessa carreira. Durante o ensino médio, cursado em um colégio privado de São Paulo, a opção da jovem era seguir o caminho do pai e virar engenheira. Mas, no último ano da escola, em um intercâmbio na Alemanha, ouviu falar de uma colega que fazia astrofísica no MIT. Pronto, era o que ela precisava para refazer todas as redações de application (vestibular das universidades americanas) e, nos trechos em que falava do objetivo de cursar engenharia, trocar por física.
“Escrevi muito mais empolgada, com muito mais amor. Acabei passando em outras universidades americanas também, mas só fui visitar a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, porque eu meio que sabia que era o lugar certo para mim. E realmente foi”, conta.
Astro na NASA
Em 2019, após construir uma rede de contatos com seus professores e estagiar na própria instituição de ensino, ela foi aprovada em um estágio no Jet Propulsion Laboratory (JPL), o centro de inovação da NASA na Califórnia. Lá, trabalhou com um espectrógrafo para detectar planetas de forma indireta, a partir do balanço quase imperceptível que uma estrela faz ao ser atraída pela gravidade de um planeta ao seu redor. Apaixonada pela experiência, Clary perguntou ao seu mentor como poderia voltar definitivamente a trabalhar na NASA depois de se formar. A resposta foi direta: “Faça um doutorado”. Dito e feito. Entre 2020 e 2024, ela mergulhou na pós-graduação, especializando-se em imagem direta — técnica para fotografar planetas distantes.
De volta para a galáxia rosa
Foi nesse período, entre cálculos complexos e a escrita de uma tese embalada pela discografia de Ariana Grande (a quem dedicou o trabalho final), que Clary decidiu resgatar sua essência. No início da faculdade, ela havia cortado o cabelo curto e adotado cores neutras no figurino para ser levada a sério. “A gente tem um estereótipo de como deve ser um cientista. Definitivamente, não é uma Elle Woods, loira, super-rosa e cheia de brilhos”, diz. Mas, com o passar dos anos, no doutorado, percebeu que sua competência não dependia da paleta de cores do guarda-roupa.
A transição de volta para o mundo pink foi gradual, mas com uma cena simbólica: uma reunião com a orientadora, na qual Clary apareceu vestida de rosa choque dos pés à cabeça, do suéter ao tênis. O elogio da mentora foi o selo de segurança que faltava para a astrofísica recuperar seu estilo. Hoje, como pós-doutoranda na Caltech, ela atua no JPL da NASA e garante que é muito mais produtiva na missão de desvendar exoplanetas quando cumpre um ritual milimetricamente projetado de manhã: maquiagem e roupas alegres. “Voltar ao meu blush foi uma mudança muito positiva na minha vida. Eu não gosto de coisas apagadas. A vida, para mim, precisa ser colorida.”



