Como a palavra 'robusto' dominou nosso vocabulário com a ajuda do ChatGPT
A invasão silenciosa de 'robusto' no português

Uma palavra de sete letras tomou conta do linguajar brasileiro nos últimos anos: robusto. Ela substituiu um vasto repertório de adjetivos precisos, como forte, sólido, consistente, expressivo e resistente, tornando-se um curinga aprovador de uso universal, dos relatórios corporativos às mesas de bar. Mas por que isso aconteceu? A resposta está na influência das inteligências artificiais generativas, especialmente o ChatGPT.

O fenômeno da palavra 'robusto'

De acordo com uma pesquisa do Instituto Max Planck, realizada na Alemanha em 2025, o uso de palavras favoritas do ChatGPT aumentou entre 35% e 51% em vídeos e podcasts após o lançamento da ferramenta. Os cientistas analisaram mais de 360 mil vídeos do YouTube e 771 mil episódios de podcast para rastrear mudanças no vocabulário. O termo 'robusto' não apareceu na pesquisa, mas uma reportagem da BBC de 2014 já o apontava como uma das palavras mais repetidas na época, o que indica que o fenômeno não é novo, mas foi amplificado pela IA.

Por que as IAs gostam de 'robusto'?

Os modelos de linguagem generativa foram treinados com vocabulário técnico anglófono, onde 'robust' já era onipresente antes mesmo do ChatGPT. Quando a ferramenta explodiu em popularidade, esse padrão linguístico vazou para o português, criando um loop em que humanos imitam a máquina e a máquina aprende com humanos. O resultado é um empobrecimento silencioso do vocabulário, não porque 'robusto' seja uma palavra errada ou feia, mas porque seu uso inflado apaga dezenas de escolhas mais precisas.

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A influência cultural das IAs

Os pesquisadores do Max Planck sugerem que o ChatGPT ocupa hoje um posto de autoridade cultural. Humanos tendem a copiar comportamentos de comunicação de quem consideram referência, e as IAs generativas se tornaram esse farol. Além disso, a palavra 'robusto' tem um apelo fonético: a sílaba tônica com a vogal 'u' produz uma sensação de boca cheia e força encorpada, como apontam os professores Henrique Braga e Marcelo Módolo, da FFLCH.

O papel do inglês técnico

Outro fator crítico é a influência do inglês técnico. No idioma de origem da maior parte das inovações em IA, o termo 'robust' já era onipresente. Dada a velocidade com que a tecnologia é importada, a tradução muitas vezes ocorre de forma direta, sem a busca por sinônimos mais naturais. Assim, o ChatGPT funcionou como um Cavalo de Troia para a palavra 'robusto', que já era moda no ambiente corporativo brasileiro, num processo semelhante ao que aconteceu com 'assertivo'.

O ciclo de retroalimentação

Como as IAs são treinadas com material produzido pelas pessoas, quanto mais 'robusto' aparece na nossa comunicação, mais se reproduz nas respostas das ferramentas. Esse ciclo de retroalimentação torna a palavra cada vez mais presente, em detrimento de adjetivos como forte, grande, amplo, vasto, expressivo, significativo, considerável, substancial, volumoso, abrangente, sólido, consistente, firme, seguro, confiável, duradouro, estável, eficaz, eficiente, capaz, poderoso, competente, resistente, durável, rígido, duro, resiliente, rico, completo, denso, detalhado, aprofundado, elaborado e desenvolvido.

Conclusão

A palavra 'robusto' existe no português há séculos, derivada do latim 'robustus', que vem de 'robur', o carvalho, árvore famosa pela dureza e resistência de sua madeira. O problema não é o uso da palavra em si, mas a influência quase imperceptível de uma tecnologia tão nova, cujo potencial ainda não foi plenamente analisado. Abrir mão de tantos outros adjetivos em prol deste único revela como a IA já moldou, de forma sutil, o jeito de falar e pensar de muita gente.

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