Cápsula Orion da missão Artemis II inicia fase crítica de retorno à Terra
A cápsula Orion, da missão Artemis II, iniciou na noite desta sexta-feira (horário de Brasília) a etapa final de retorno à Terra, considerada a mais delicada e complexa de toda a viagem histórica. O pouso no Oceano Pacífico, próximo à costa de San Diego, nos Estados Unidos, está previsto para ocorrer às 21h07, marcando o culminar de uma jornada espacial que testou os limites da engenharia e da resistência humana.
Momento extremo: desaceleração de 40 mil km/h em poucos minutos
A fase de reentrada concentra alguns dos momentos mais extremos e desafiadores da missão. Em um intervalo de tempo surpreendentemente curto, a nave precisa reduzir sua velocidade de mais de 40 mil quilômetros por hora — equivalente a cerca de 30 vezes a velocidade do som — para aproximadamente 32 quilômetros por hora, velocidade considerada segura para o impacto controlado no mar.
A reentrada começa a cerca de 122 quilômetros de altitude, ponto em que a cápsula passa a interagir com as primeiras camadas da atmosfera terrestre. A partir desse momento crítico, o próprio ar funciona como um "freio natural": o atrito desacelera a nave rapidamente, mas também gera temperaturas superiores a 2.700 graus Celsius ao redor do escudo térmico especializado.
Blackout de comunicação e autonomia da tripulação
Esse aquecimento intenso forma um plasma ao redor da cápsula, bloqueando as comunicações com a Terra por cerca de seis minutos — um período conhecido como blackout. Durante essa fase crucial, a tripulação segue todos os procedimentos de forma completamente autônoma, sem qualquer contato com o controle da missão na Terra, demonstrando a confiabilidade dos sistemas e o treinamento rigoroso dos astronautas.
O processo de pouso faz com que os astronautas enfrentem forças de até quatro vezes a gravidade da Terra. Para tornar essa desaceleração suportável ao corpo humano, a nave entra na atmosfera em um ângulo muito específico e cuidadosamente calculado, o que prolonga o tempo de descida e evita impactos ainda mais bruscos que poderiam comprometer a segurança da tripulação.
Sistema de paraquedas e splashdown controlado
Após a frenagem inicial — responsável pela maior parte da perda de velocidade — a Orion segue para a fase final da descida. A cerca de 6,7 quilômetros de altitude, são abertos os paraquedas de estabilização, que ajudam a controlar a trajetória e reduzir ainda mais a velocidade de forma gradual e controlada.
Pouco depois, por volta de 1,8 quilômetro, entram em ação os três paraquedas principais, responsáveis por desacelerar a cápsula até cerca de 32 quilômetros por hora. É nessa velocidade que a Orion deve tocar as águas do Oceano Pacífico, em um procedimento conhecido como splashdown, que marca o término da fase de reentrada atmosférica.
Cronograma detalhado da reentrada
Acompanhe os principais momentos da reentrada da cápsula Orion (horários de Brasília):
- 20h33 — Separação do módulo de serviço; escudo térmico fica exposto para a reentrada
- 20h37 — Queima de motores ajusta o ângulo de entrada na atmosfera
- 20h53 — Cápsula atinge 122 km de altitude; começa a reentrada e o apagão de comunicação (blackout)
- 21h03 — Abertura dos paraquedas de frenagem, a cerca de 6,7 km de altitude
- 21h04 — Abertura dos três paraquedas principais, a cerca de 1,8 km
- 21h07 — Splashdown no Oceano Pacífico, a cerca de 32 km/h
Operação de resgate e protocolos pós-pouso
Após o pouso, a operação de resgate começa imediatamente. Equipes da NASA e das forças armadas dos Estados Unidos se deslocam até a cápsula, mas a retirada dos astronautas deve acontecer em até duas horas para garantir sua segurança e bem-estar.
Eles serão levados de helicóptero até o navio militar USS John P. Murtha, onde passam pelas primeiras avaliações médicas ainda no mar, monitorando possíveis efeitos da reentrada em seus organismos. Na sequência, a tripulação retorna ao continente e embarca para o Centro Espacial Johnson, no Texas.
Lá, os astronautas continuam sendo monitorados por equipes médicas especializadas, em um protocolo padrão que avalia minuciosamente os efeitos da microgravidade e da reentrada no organismo humano, coletando dados valiosos para futuras missões espaciais.
Significado histórico da missão Artemis II
A Artemis II marca o retorno de missões tripuladas ao entorno da Lua desde o programa Apollo, encerrado nos anos 1970. Ao longo de cerca de dez dias, quatro astronautas — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen — percorreram mais de 1,1 milhão de quilômetros, na maior distância já viajada por humanos no espaço profundo.
Diferentemente das missões Apollo, o objetivo não foi pousar na Lua, mas testar todos os sistemas necessários para futuras missões: a cápsula Orion, o foguete Space Launch System (SLS) e os protocolos de segurança para voos tripulados em espaço profundo. A missão incluiu uma órbita ao redor da Lua e o retorno à Terra em alta velocidade — uma das manobras mais complexas da engenharia espacial contemporânea.
Próximos passos do programa Artemis
O sucesso dessa etapa é considerado fundamental para os próximos passos do programa espacial. Com os dados coletados durante a Artemis II, a NASA avança agora para a Artemis III, prevista para os próximos anos. A missão deve marcar o retorno de astronautas à superfície lunar — incluindo a primeira mulher e a primeira pessoa negra a pisar na Lua — e abrir caminho para uma presença mais contínua e sustentável no satélite natural da Terra.
A Lua é vista como um laboratório crucial para futuras missões mais ambiciosas, como viagens a Marte e além. Por isso, a Artemis II não encerra apenas uma jornada histórica: ela inaugura uma nova fase da exploração espacial, com foco em permanência, desenvolvimento tecnológico e expansão das fronteiras humanas no cosmos, estabelecendo as bases para as próximas décadas de descobertas espaciais.



