Como Sobreviver à Patrulha Social: Palavras que Ferem e a Crônica de Walcyr Carrasco
Patrulha Social: Como Sobreviver às Palavras que Ferem

Como Sobreviver à Patrulha Social dos Invejosos de Plantão

Walcyr Carrasco, em uma crônica sensível e reflexiva, aborda um tema que toca a todos: a agressão disfarçada em palavras no dia a dia. O autor explora como o prazer alheio se torna alvo de críticas e como os chamados "fiscais da vida alheia" espalham venenos verbais que podem corroer relações e autoestima.

O Peso das Palavras e a Consciência sobre Gordofobia

O cronista inicia expressando espanto com a frequência com que as pessoas se agridem verbalmente, muitas vezes sem perceber o impacto de suas falas. Ele destaca que, felizmente, tem crescido a consciência em torno de situações como a gordofobia, um tipo de discriminação baseada no peso corporal.

Agressões sob a capa do bom humor são comuns para pessoas com sobrepeso, relata Carrasco, compartilhando uma experiência pessoal. Ele conta que já sofreu com "brincadeiras" mexendo com sua barriga, embora ressalte que, no seu caso, isso não levou a problemas graves como depressão, algo que já testemunhou em outras pessoas.

O Momento da Picada: Quando a Crítica Atinge o Prazer

Um dos pontos centrais da crônica é a análise de como pessoas venenosas escolhem momentos específicos para dar suas "picadas". Carrasco ilustra isso com situações cotidianas: ser alvo de piadas justamente ao colocar uma picanha no prato, ou receber conselhos não solicitados sobre dieta em meio a uma refeição saborosa.

O ruim de certos conselhos não é nem sequer o que é dito, mas o momento que se escolhe para dizer, afirma o autor. Ele expande o exemplo para outras áreas: avisar que massa engorda durante uma macarronada, criticar o consumo de álcool em uma comemoração, ou comentar sobre a altura de uma criança de forma negativa.

Para os fiscais da vida alheia, nunca nada está bom — a não ser eles mesmos, reflete Carrasco, destacando a natureza corrosiva dessas críticas constantes.

Memórias do Interior: A Fofoca como Poder Social

O autor transporta o leitor para sua infância em Marília, uma cidade do interior de São Paulo que, na época, era pequena e onde todos sabiam da vida alheia. Ele descreve como o balcão do bazar de sua mãe funcionava como uma central de notícias, onde freguesas compartilhavam histórias e críticas.

Talvez as histórias de amor que escrevo hoje tenham suas sementes nos romances reais contados na beira daquele balcão, pondera Carrasco, conectando suas memórias à sua carreira literária. No entanto, ele também relembra a facilidade com que a crítica era disseminada, em uma época onde detalhes como decotes em vestidos de noiva ou beijos em público causavam alvoroço.

As palavras tinham o incrível poder de desarrumar a vida alheia, até de estremecer casamentos, observa o cronista, expressando seu horror a comentários maliciosos que cresceu testemunhando.

Uma Curiosidade Inocente em Meio ao Veneno

Em um contraste leve e curioso, Carrasco compartilha uma dúvida de infância que permanece sem resposta: se as freiras de um convento perto de sua casa, que usavam hábitos e véus longos, eram carecas. Com o tempo, o uso de hábitos pelas religiosas acabou, mas essa informação venenosa — no sentido de fofoca — nunca lhe foi revelada.

Essa anedota serve como um lembrete de como até mesmo curiosidades inocentes podem se tornar parte do tecido social de críticas e especulações, embora, neste caso, sem o caráter agressivo das outras situações descritas.

A crônica de Walcyr Carrasco, publicada originalmente na edição de 23 de janeiro de 2026 da revista VEJA, convida à reflexão sobre como nossas palavras podem ferir e como podemos resistir à patrulha social que busca minar os prazeres alheios.