Duas Vidas, Dois Legados: As Despedidas que Comoveram o Brasil e o Mundo
A semana de 23 de janeiro de 2026 ficou marcada por duas perdas significativas, que ecoaram além de suas respectivas áreas de atuação. De um lado, o mundo da moda se despede de um verdadeiro imperador; do outro, o cenário político brasileiro perde uma voz de equilíbrio e diálogo. Valentino Garavani e Raul Jungmann, cada um à sua maneira, dedicaram suas vidas à excelência, deixando marcas profundas que serão lembradas por gerações.
O Último Imperador da Alta-Costura: Valentino Garavani
Chamado apenas pelo primeiro nome, como convém aos soberanos, Valentino Garavani construiu um reinado singular na moda internacional. Conhecido como "o último imperador", o estilista italiano, que faleceu em 19 de janeiro em Roma aos 93 anos, foi um mestre da alta-costura desde os anos 1950, influenciando continuamente seus pares e redefinindo o conceito de glamour.
Sua trajetória foi lapidada nas renomadas casas parisienses de Jean Dessès e Guy Laroche, mas seu maior feito foi elevar a moda italiana a um patamar equivalente ao das tradicionais maisons francesas. Ao lado de Giancarlo Giammetti, seu parceiro de vida e negócios, Valentino criou uma grife que não apenas vestiu a elite global – incluindo primeiras-damas, estrelas de Hollywood e princesas – mas também moldou a própria ideia de elegância atemporal.
A estética valentiniana é caracterizada por:
- Linhas puras e volumes precisos
- Uso de tecidos nobres e acabamentos impecáveis
- Um equilíbrio entre clássico e contemporâneo, luxuoso sem ostentação
No coração desse império, avaliado em mais de 4 bilhões de euros, pulsa o icônico vermelho Valentino. Introduzido nas passarelas a partir de 1959, inspirado no dramatismo da ópera Carmen, de Georges Bizet, essa tonalidade se tornou sua assinatura, frequentemente encerrando os desfiles em grande estilo, como nas apresentações com a modelo Iman.
"Eu sei o que as mulheres querem: ser bonitas", declarou certa vez o estilista. Em sua filosofia, isso não significava submissão a padrões efêmeros, mas sim o respeito ao desejo feminino de se reconhecer no espelho com força e graça. Sua morte encerra uma era, mas seu legado de beleza e sofisticação permanece vivo.
O Homem de Diálogo: Raul Jungmann
No Brasil, a política perdeu uma figura de raro bom senso e capacidade de mediação. Raul Jungmann, pernambucano de 73 anos, faleceu em 18 de janeiro vítima de câncer no pâncreas, deixando um vazio no serviço público brasileiro.
Ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública no governo Michel Temer, Jungmann era visto por muitos como um "espelho e padrão" para seus pares. Em mensagem de despedida, Temer destacou que "suas posições não eram ancoradas em nenhuma raivosidade pessoal ou ideológica. No seu horizonte estavam o interesse do povo brasileiro e do país".
Sua carreira foi marcada pelo diálogo constante, com interlocução tanto à direita quanto à esquerda, sempre com uma predileção pelo centro equilibrado. Anteriormente, serviu como ministro de Política Fundiária e Desenvolvimento Agrário no governo de Fernando Henrique Cardoso, demonstrando versatilidade e compromisso com causas nacionais.
Em entrevista recente, Jungmann abordou com franqueza um dos problemas mais complexos da sociedade brasileira:
"Todos os apenados, para sobreviver dentro do sistema prisional, precisam estar associados a facções. Senão, eles correm o risco de morrer, de serem violentados, de serem torturados. Quando eles voltam para as ruas, há uma mudança: não são bandidos isolados, e agora são bandidos a serviço exatamente das facções criminosas."
Essa análise direta e sem meias-palavras exemplifica sua abordagem pragmática e preocupação com questões estruturais do país.
Legados que Transcendem o Tempo
Embora atuando em esferas aparentemente distantes – a alta-costura internacional e a política nacional – Valentino Garavani e Raul Jungmann compartilhavam um compromisso inabalável com a excelência em seus respectivos campos.
Enquanto Valentino deixou como herança uma visão de beleza que empodera e encanta, Jungmann deixa o exemplo de um servidor público dedicado ao diálogo e ao interesse coletivo. Duas trajetórias que se encerram, mas cujas contribuições continuarão a inspirar e influenciar.
Num mundo muitas vezes marcado pela efemeridade e pela polarização, as histórias desses dois homens nos lembram do valor da permanência, da arte bem executada e do serviço público exercido com integridade. Suas despedidas não são apenas momentos de tristeza, mas oportunidades para refletir sobre o que realmente importa deixar para as futuras gerações.