Um estudo conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que moradores de regiões mais vulneráveis de Campinas, no interior de São Paulo, enfrentam um risco significativamente maior de morte por câncer, mesmo quando a incidência de novos casos é menor nesses grupos. A pesquisa, publicada na revista científica internacional Cancer Epidemiology, foi realizada por pesquisadores do Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera) e aponta que a desigualdade no acesso aos serviços de saúde é um dos principais fatores para esse cenário preocupante.
Desigualdade na mortalidade por câncer
Segundo a epidemiologista Andrea von Zuben, os dados indicam que a mortalidade por câncer pode ser até três vezes maior entre os mais vulneráveis, evidenciando um possível acesso tardio ao diagnóstico e ao tratamento. “Os dados mostram que a mortalidade por câncer pode ser até três vezes maior entre os mais vulneráveis, evidenciando que pode haver acesso tardio ao diagnóstico e ao tratamento”, afirma a pesquisadora.
Para os autores, os números sugerem um subdiagnóstico: a população mais vulnerável não necessariamente adoece menos, mas tem menos acesso a exames e descobre a doença em estágios mais avançados. Entre os principais problemas identificados nesses grupos estão a dependência quase exclusiva do Sistema Único de Saúde (SUS), maior tempo de espera para exames e consultas, diagnósticos tardios e menor chance de cura.
Base de dados e metodologia
A pesquisa analisou um período de dez anos, de 2010 a 2019, e cruzou três bases oficiais: o Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) de Campinas, auditado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS); o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM); e o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS).
Carmino Antonio de Souza, médico onco-hematologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, destaca a qualidade da base de dados utilizada. “Campinas tem a primazia, e são muito poucos os lugares no Brasil de ter o que nós chamamos de registro de câncer de base populacional. Então todos os casos de câncer em Campinas são prospectivamente coletados”, explica. Uma lei municipal de 2017 tornou o câncer uma doença de notificação compulsória, ampliando o monitoramento de casos pela rede pública.
Para medir as desigualdades, os pesquisadores utilizaram o Índice Relativo de Desigualdade (RII), que permite comparar o risco de adoecimento e morte entre diferentes grupos socioeconômicos ao longo do tempo. O estudo ressalta que Campinas possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado muito alto (0,805) e uma taxa de urbanização de 98,28%, fatores que podem ser comparáveis aos de países de alta renda. No entanto, há uma clara desigualdade entre regiões ao mapear a incidência de casos e mortalidade por câncer na metrópole de 1,18 milhão de habitantes.
“A cidade como um todo é poderosa, com um dos IDHs mais altos do Brasil, mas não é homogênea. Aí fica claro que as questões socioeconômicas são importantíssimas em relação à mortalidade”, pondera Carmino.
Diferenças entre tipos de câncer
Os pesquisadores mapearam as disparidades no diagnóstico e na letalidade dos tumores mais comuns entre os moradores de Campinas: próstata, estômago, mama, pulmão, cavidade oral, colo do útero e colorretal. “A gente optou pelos tumores mais prevalentes para dar uma ideia da influência dessa iniquidade socioeconômica e qual, digamos, a influência que isso tem na evolução, medido pelo desfecho pior que existe, que é a morte”, explicou Carmino.
Câncer de próstata
Embora a incidência de casos tenha caído em Campinas de forma modesta, a desigualdade na mortalidade aumentou significativamente. Entre 2015 e 2019, o risco de morte foi até três vezes maior entre os homens mais pobres em comparação com os cinco anos anteriores. O estudo elenca barreiras socioculturais, como menor escolaridade, menor letramento em saúde e preconceitos relacionados ao exame de toque retal, que contribuem para a busca tardia por atendimento.
Câncer de colo do útero
Doença altamente prevenível através da vacina, o câncer de colo do útero quase desapareceu nas áreas mais ricas de Campinas, mas segue representativo nas regiões mais vulneráveis. A mortalidade é até 3,6 vezes maior entre os mais pobres. Homens em situação de maior vulnerabilidade dependem quase exclusivamente do SUS, onde enfrentam maiores tempos de espera para consultas especializadas, exames diagnósticos e início do tratamento.
Câncer de cavidade oral
Nos casos de câncer da cavidade oral, falhas na atenção básica em Campinas podem influenciar o resultado. “A proporção de equipes de saúde bucal no SUS é inferior ao ideal para o tamanho da população, com foco ainda muito centrado em procedimentos curativos, como restaurações e extrações, em detrimento de ações sistemáticas de rastreamento e busca ativa”, alerta Andrea von Zuben. O risco de morte é até 3,3 vezes maior entre os mais pobres.
Câncer de estômago
Embora Campinas acompanhe a tendência nacional de queda geral na incidência e mortalidade entre homens, o estudo indicou que a doença ainda atinge mais a população pobre da cidade. Entre a população feminina, o câncer de estômago passou a atingir com mais força as mulheres de baixa renda a partir de 2015, indicando a necessidade de políticas públicas com foco em equidade.
Câncer de mama
O estudo aponta um abismo entre classes sociais no câncer de mama, que tem maior incidência em mulheres mais ricas devido a fatores reprodutivos e maior acesso a exames preventivos. No entanto, mulheres pobres tendem a descobrir a doença em estágios avançados, com pior prognóstico.
Câncer de pulmão
Os pesquisadores identificaram um crescimento da incidência e mortalidade entre as mulheres, por conta do aumento do tabagismo nessa população. “Esse padrão é consistente com o que a literatura epidemiológica mundial documenta sobre a transição do tabagismo por gênero”, diz Von Zuben.
Câncer colorretal
No caso do câncer colorretal, há uma dificuldade na oferta de exames complexos, como colonoscopia, em larga escala pelo SUS. A doença está ligada ao consumo de ultraprocessados, obesidade e sedentarismo, e pode se tornar uma das maiores causas de morte evitável entre os mais pobres nos próximos anos.
Objetivo do estudo
Segundo os pesquisadores, o objetivo do estudo é subsidiar a gestão pública de saúde local e estadual para o enfrentamento das iniquidades. “A ideia é que isso sirva para que, principalmente a Secretaria Municipal de Saúde, trabalhe as questões de políticas públicas. Só com boas políticas públicas é que você vai conseguir rastrear, fazer diagnóstico precoce e, consequentemente, tratar precocemente”, avalia Carmino.
O pesquisador defende que o estudo descortina a possibilidade de avanço em algumas áreas e esclarecimento em outras, como a conscientização da população e o treinamento dos profissionais de saúde. “A questão do letramento no câncer é um grande problema da população, mas também dos profissionais de saúde. Hoje, os profissionais de saúde têm que pensar oncologicamente, porque é cada vez mais frequente”, reforça Carmino.



