Médicos alertam para prática ilegal de empresas na manipulação e venda de injeções para emagrecer
Em fevereiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou um alerta sobre o uso descontrolado das chamadas canetas emagrecedoras. Agora, uma nova investigação revela uma preocupação ainda mais grave entre profissionais da saúde: o perigo da manipulação e da venda ilegal de injeções para emagrecer, com práticas que envolvem propostas de parceria nos lucros.
Manipulação irregular e ofertas comerciais a médicos
O Jornal Nacional obteve acesso a mensagens de 13 empresas dirigidas a médicos de diversas especialidades, nas quais são oferecidas "condições especiais para pagamentos" e vantagens comerciais. Um representante de laboratório chega a solicitar receitas médicas para manipular a fórmula da tirzepatida, princípio ativo do medicamento Mounjaro, mundialmente conhecido como remédio para emagrecer.
Em uma das conversas, o médico questiona: "Eu mesmo assino e me prescrevo?". A resposta do representante é direta: "Pode ser até dez frascos no seu nome". Segundo as regras da Anvisa, a manipulação desse tipo de substância só é permitida em casos muito específicos e mediante pedido médico justificado, não existindo versão genérica autorizada.
Prática condenada pelo Conselho Federal de Medicina
O endocrinologista Flavio Pirozzi relata que os laboratórios frequentemente propõem parcerias nos lucros, com comissões que podem chegar a 20% ou 30% sobre o valor vendido. "Dia sim, dia não. E, ao mesmo tempo, vem uma coisa ilegal no meio, que é também a colocação de comissões", afirma o especialista.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) condena veementemente essa prática. Bruno Leandro Souza, coordenador da Câmara Técnica de Endocrinologia e Metabologia do CFM, explica: "Qualquer médico que esteja vendendo medicação manipulada, principalmente em grande quantidade para múltiplos pacientes, sem a regulamentação adequada, está cometendo infração ética, será avaliada pelo seu conselho regional e em recurso também pelo conselho federal de medicina, quando for o caso".
Aumento nas importações e riscos à saúde
Dados da Receita Federal indicam que a importação do insumo para produção dessas injeções deu um salto significativo após a publicação da norma da Anvisa que autoriza a manipulação, em agosto de 2025. No último trimestre, entrou no país quantidade suficiente para produzir aproximadamente 1,5 milhão de doses.
Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, alerta: "O que está acontecendo hoje é uma inversão do propósito social até da farmácia de manipulação. Em vez delas manufaturarem, customizarem a prescrição do médico, elas recrutam o médico para comercializar, inclusive nas suas clínicas, esse volume gigantesco dessa substância".
Casos graves e falta de controle
Manipular a tirzepatida em grandes quantidades, revender e aplicar em clínicas, ou fracionar ampolas entre diferentes pacientes são práticas irregulares que se espalham pelo país. Especialistas destacam que não é possível atestar a procedência, o nível de pureza e a dosagem correta desse tipo de medicação manipulada irregularmente, o que impede prever e tratar possíveis efeitos colaterais.
Um caso emblemático é o de Nathália El Ossais de Oliveira, gerente de controladoria comercial, que queria perder 5 kg. Sua ginecologista ofereceu "um pacote" com seis doses manipuladas. Após a quarta aplicação, ela foi internada às pressas em uma UTI cardiológica. "Provavelmente, dentro desse produto manipulado, tinha algum coquetel de emagrecimento que tinha diurético. Fez com que esse diurético eliminasse o meu potássio e o meu corpo reagiu com essa arritmia. É assustador", relata a paciente.
Posicionamento do setor e investigações em andamento
A Associação Nacional dos Farmacêuticos, que representa o setor, afirmou que as manipulações de remédios são realizadas sob prescrição para pacientes específicos e que as farmácias seguem boas práticas e normas sanitárias rigorosas. No entanto, o Jornal Nacional tentou contato com a associação responsável pelas farmácias de manipulação de injetáveis, sem obter retorno.
A lista completa das 13 empresas que ofereceram medicamentos manipulados de forma ilegal aos médicos, bem como a posição oficial de cada uma delas, está disponível para consulta pública. As autoridades continuam investigando essas práticas irregulares que colocam em risco a saúde da população.



