A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) conduziu uma análise sobre o uso de celulares por pessoas com mais de 60 anos, concluindo que o tempo excessivo diante das telas pode desencadear problemas como insônia e ansiedade. O estudo, que revisou os 20 trabalhos mais relevantes sobre o tema, identificou que a nomofobia — o medo de ficar desconectado — também afeta significativamente essa faixa etária.
Mudança de hábitos na terceira idade
Com o avanço da tecnologia, os idosos têm adotado cada vez mais dispositivos digitais no dia a dia. A professora aposentada Iara Pereira exemplifica essa transformação: “Para ver vídeo, estudar macramê, crochê, tricô... Então, uso muito celular. Tanto é que tenho um celular, um tablet e um notebook”. Esse grupo representa bem a transição do analógico para o digital, com seus prós e contras.
O aposentado Sergio Pimentel alerta para os cuidados necessários: “Tem que ter cuidado, não abrir nem entrar no ‘saiba mais’ de qualquer coisa. Tem que procurar se prevenir e a nossa professora deixa a gente vacinado”. Já Marlene Mattos Fernandes, também aposentada, admite: “Você começa às sete horas e daqui a pouquinho é dez horas e você não fez nada. Tudo é feito pelo celular. Eu uso demais”.
Nomofobia e outros riscos
A pesquisadora Renata Maria Silva Santos, do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia da UFMG, explica que a nomofobia é “um desconforto generalizado, um medo de ficar desconectado do celular, seja por falta de bateria ou por falta de internet”. O estudo, realizado ao longo de 11 anos com 50 mil idosos — sendo 11 mil brasileiros —, também aponta outros problemas: “O desenvolvimento de dependência, maior dificuldade para lidar com fake news, exposição grande aos riscos de golpe. A gente não tem ali a definição de um tempo saudável, como a gente tem para os adolescentes”, afirma a pesquisadora.
Impacto na qualidade do sono
O uso excessivo de telas afeta diretamente a qualidade do sono dos idosos. Ivone, de 80 anos, costuma ficar até tarde jogando no celular e perde a disposição para atividades físicas. Sua filha, Alexandra da Silva, relata: “Ela acorda cedo, mas fica horas no celular e perde o horário da hidroginástica. Ela está ativa no grupo da ginástica, mas não fisicamente”. Por outro lado, Ivone se diverte com vídeos, notícias e receitas novas, mostrando que nem tudo é negativo.
Qualidade do conteúdo é fundamental
Os especialistas destacam que não apenas a quantidade de tempo importa, mas também a qualidade do conteúdo consumido. É preciso avaliar se o uso gera ansiedade, angústia e isolamento ou se traz estímulos positivos, como aprendizado e maior contato com familiares e amigos. A terapeuta ocupacional Renata Maria Silva Santos enfatiza: “Em termos de desenvolver estratégias, a família precisa voltar mais o olhar para a vulnerabilidade dessas pessoas, porque elas precisam de atenção. A gente precisa melhorar esse cuidado, esse aporte mesmo de letramento do mundo digital para essa idade”.
Resultados da pesquisa
- Análise de 20 trabalhos científicos sobre uso de telas por idosos
- 11 anos de pesquisa com 50 mil idosos, sendo 11 mil brasileiros
- Identificação de nomofobia, dependência e dificuldade com fake news
- Impacto negativo na qualidade do sono
O estudo da UFMG reforça a necessidade de orientação e suporte para que os idosos possam usufruir dos benefícios da tecnologia sem comprometer a saúde física e mental.



