SUS inicia projeto-piloto para substituir insulina NPH por versão mais moderna em quatro estados
SUS substitui insulina NPH por glargina em projeto-piloto em quatro estados

SUS inicia projeto-piloto para substituir insulina NPH por versão mais moderna em quatro estados

O Ministério da Saúde está implementando um projeto-piloto entre fevereiro e março de 2026 nos estados do Amapá, Paraíba, Paraná e no Distrito Federal. A iniciativa visa substituir a insulina NPH, um medicamento de duração média e mais antigo, pela insulina glargina, que possui ação prolongada e é considerada mais moderna. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o objetivo é expandir o programa para todos os estados ainda neste ano.

Público-alvo e benefícios da nova insulina

Na fase inicial, o projeto contempla crianças e adolescentes de até 17 anos com diabetes tipo 1, além de idosos com 80 anos ou mais com diabetes tipo 1 ou 2. A estimativa é que aproximadamente 50 mil pessoas sejam beneficiadas nesta etapa. A escolha do público-alvo foi acordada entre um comitê de especialistas e gestores estaduais e municipais, com possibilidade de ampliação ao longo do ano conforme a evolução do programa e a capacidade de produção.

Patrícia Moreira Gomes, diretora da Sbem-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo), explica que a principal diferença entre as insulinas está no perfil de ação. A NPH, apesar de ser considerada de ação intermediária, geralmente não cobre as 24 horas do dia, exigindo duas ou três aplicações diárias. Já a glargina tem duração próxima de 24 horas, sendo usada, na maioria dos casos, uma vez ao dia.

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A NPH faz um pico de ação e depois o efeito cai, o que aumenta o risco de hipoglicemia. Já a glargina tem uma ação mais constante, o que reduz esse risco, afirma a especialista. Além disso, a redução no número de aplicações diárias tende a melhorar a adesão ao tratamento, oferecendo mais comodidade e facilitando o uso correto da insulina.

Economia para o sistema público e desafios de implementação

A mudança também pode gerar economia para o sistema público de saúde. Menos aplicações significam menor uso de agulhas e redução no risco de episódios de hipoglicemia que exigem atendimento de urgência. Quando o paciente tem queda de açúcar, às vezes precisa procurar pronto atendimento ou até o Samu. Reduzindo essas ocorrências, o sistema também reduz custos, destaca Patrícia Moreira Gomes.

No entanto, a implementação enfrenta desafios. A insulina glargina foi incorporada ao SUS em 2019, mas sua distribuição começou apenas em 2026, após atrasos devido a dificuldades na aquisição. O Ministério da Saúde enfrentou exigências de custo igual ou inferior ao da insulina NPH, resultando em dois pregões sem sucesso. Além disso, a principal limitação para a ampliação do uso da glargina é a disponibilidade de canetas reutilizáveis necessárias para a aplicação do refil.

Produção nacional e crise internacional de insulina

Para enfrentar uma crise internacional no abastecimento de insulinas, o Brasil retomou a produção nacional após 20 anos de dependência do mercado externo. Isso se deve a acordos de transferência de tecnologia com laboratórios da Índia e China, permitindo que laboratórios públicos como a Funed em Minas Gerais e Bio-Manguinhos no Ceará iniciem a fabricação.

O ministro Padilha alerta que o mundo enfrenta uma crise no abastecimento devido à produção em larga escala de canetas emagrecedoras, que desviaram investimentos das insulinas. Os principais produtores internacionais de insulina migraram boa parte das suas fábricas para os chamados peptídeos, usados nas canetas emagrecedoras, explica. A previsão é produzir 36 milhões de tubetes de insulina glargina em 2026, com parte da produção ainda ocorrendo na China durante a transição tecnológica.

Treinamento e perspectivas futuras

As equipes de saúde estão passando por treinamento para prescrição, aplicação e acompanhamento dos pacientes, incluindo orientações sobre o uso das canetas de insulina, consultas regulares e visitas domiciliares. O projeto-piloto avaliará a dispensação do medicamento, o treinamento de profissionais e as orientações aos pacientes.

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Karla Melo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, que participou do Grupo de Trabalho da Insulina implementado em novembro de 2025, afirma que não tem recebido relatos recentes de desabastecimento amplo. As faltas que acontecem geralmente são pontuais, ligadas à distribuição entre estados e municípios, mas não tenho ouvido notícias de problemas mais amplos, conclui.