Alerta Crescente para Doença de Chagas Após 37 Casos Confirmados em Ananindeua
O município de Ananindeua, localizado na Grande Belém, está enfrentando um surto preocupante de doença de Chagas, com um total de 37 casos confirmados até o momento. Este cenário tem gerado um alerta significativo entre autoridades de saúde e a população local, especialmente devido ao impacto direto na rotina de comerciantes e consumidores de açaí, produto suspeito de estar associado à transmissão da doença.
Dados Alarmantes e Mortes Registradas
De acordo com informações da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), apenas no mês de janeiro de 2026, foram registradas quatro mortes relacionadas à doença de Chagas em Ananindeua. Este número é considerado alarmante, pois supera todos os óbitos registrados nos últimos cinco anos combinados. A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) complementa esses dados, indicando que até março de 2025, todo o estado do Pará havia contabilizado 45 casos, o que destaca a gravidade do surto atual em Ananindeua.
Os casos notificados em dezembro de 2025 somaram 26, enquanto em janeiro de 2026, foram 14 novos registros. O Ministério da Saúde já reconheceu oficialmente que o município enfrenta um surto da doença, com a principal suspeita de transmissão recaindo sobre falhas no manuseio e na limpeza do açaí durante seu processamento.
Impacto Econômico e Preocupação dos Comerciantes
Entre os vendedores de açaí, a percepção é clara: as vendas diminuíram consideravelmente após a divulgação dos casos da doença de Chagas. Júnior Silveira, proprietário de um ponto de venda no bairro do 40 Horas, relata que a procura pelo produto caiu desde o início de 2026. "Sempre que surgem casos da doença, as vendas caem. Trabalho há sete anos com açaí e isso acontece quase todo ano", afirma o comerciante.
Durante períodos normais de safra, o movimento em seu estabelecimento chega a vender entre 90 e 100 litros de açaí por dia durante a semana, e aproximadamente 140 litros nos fins de semana. No entanto, com o surto atual, as vendas reduziram para cerca de 60 litros nos dias úteis e 80 litros nos finais de semana. Júnior também observa que os consumidores passaram a questionar com mais frequência sobre a higiene e o preparo do produto, exigindo maior transparência.
Medidas de Higiene e Transparência Adotadas
Para tentar manter a confiança dos clientes, muitos comerciantes têm reforçado os cuidados com a higiene e o preparo do açaí. No estabelecimento de Júnior Silveira, por exemplo, o produto passa por um processo rigoroso que inclui:
- Peneiração e lavagens sucessivas
- Uso de solução adequada para desinfecção
- Branqueamento e resfriamento
- Batimento com água filtrada
Além disso, o local adota práticas de limpeza diária dos equipamentos e do espaço físico, permitindo que os clientes acompanhem o preparo do açaí no local. "Todos os dias perguntam sobre o manuseio do açaí. A gente faz vídeos, convida os clientes para verem como é feito e isso ajuda a gerar confiança", conta Júnior.
Outros Comerciantes Afetados e Casos Graves
Marcelo, outro comerciante com mais de 20 anos de experiência na venda de açaí, também sente o impacto do surto. Em seu estabelecimento, que comercializa em média 200 litros por dia, ele investe em capacitação e melhorias, como manutenções nos maquinários e manipulação adequada dos alimentos. "Processo necessário para levar segurança aos nossos clientes e nos deixar seguros também", afirma.
A situação mais trágica envolve a quarta vítima fatal confirmada pela Prefeitura de Ananindeua: uma menina de 11 anos que faleceu após quase duas semanas internada na UTI de um hospital particular no bairro do Umarizal, em Belém. Exames confirmaram que a criança contraiu a doença de Chagas, com agravamento do quadro clínico levando a insuficiência cardíaca, estágio mais grave da infecção. A família informou que consumiu açaí no município de Ananindeua, e o irmão da menina, uma criança de 5 anos, também apresentou sintomas da doença.
Ações das Autoridades de Saúde
Em resposta ao surto, a Prefeitura de Ananindeua intensificou ações de vigilância, monitoramento, fiscalização e orientação, em parceria com o Ministério da Saúde, a Sespa e o Instituto Evandro Chagas. A administração municipal segue acompanhando a evolução dos casos, buscando conter a propagação da doença e garantir a segurança alimentar da população.
Este cenário destaca a importância de medidas preventivas e de controle sanitário rigoroso, especialmente em regiões onde o açaí é um alimento tradicional e amplamente consumido, mas que pode representar riscos à saúde se não for manuseado corretamente.