Superlotação Crítica no HC-UFU: Pacientes em Macas Ocupam Corredores e Acompanhantes Dormem no Chão
Uma reportagem exibida pela TV Integração nesta quinta-feira (12) revelou uma situação alarmante de superlotação no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). Imagens enviadas por telespectadores mostram macas espalhadas pelos corredores e acompanhantes dormindo no chão, cenário que compromete severamente a qualidade do serviço oferecido.
Condições Insalubres e Falta de Estrutura
Francisco José de Araújo Filho, enfermeiro da unidade de Urgência e Emergência do HC-UFU, afirmou que não há um único corredor no hospital sem pacientes. "A observação passou a ser uma enfermaria de internação e, como não temos onde colocar os pacientes, eles ficam distribuídos pelos corredores", explicou. As macas estão sendo utilizadas como leitos improvisados, com a técnica em enfermagem Marli Teixeira de Cerqueira relatando que os pacientes chegam a aguardar até quatro dias nessas condições.
A higiene e os curativos são realizados nos corredores, longe do ambiente ideal. "A gente precisa disputar espaço no banheiro de setores vizinhos porque o setor de observação não tem", disse Marli. Luiz Alberto Gavassi, enfermeiro e diretor do Sindserh-MG, complementou que as salas designadas para esses procedimentos estão completamente ocupadas por pacientes internados.
Capacidade Excedida e Sobrecarga Profissional
O médico Guilherme Henrique de Faria Alves destacou que há pacientes internados até dentro de consultórios médicos, incluindo casos de tratamento de câncer e idosos acompanhados por outros idosos que precisam dormir em cadeiras ou no chão. "Sem contar a parte assistencial, porque esses leitos a mais, com pacientes internados onde não deveriam estar, acabam não recebendo o atendimento adequado", alertou.
A unidade de Urgência e Emergência do HC-UFU possui 69 leitos de internação, mas, segundo os servidores, esse número chega a quase três vezes mais em alguns dias. Eliseu da Costa Campo, enfermeiro oncologista e coordenador do Sindserh-MG, relatou: "Em alguns dias chega a 180 pacientes. Um profissional que atende, com segurança, três ou quatro pacientes precisa cuidar de 10". Guilherme Henrique acrescentou que as condições são insalubres, com falta de plantonistas na clínica médica, onde dois profissionais são responsáveis por cerca de 30 pacientes.
Decisão Judicial e Medidas para Reorganização
O cenário de superlotação no pronto-socorro vem se agravando desde 2025, com reuniões realizadas para buscar soluções. Uma decisão da Justiça, após ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF), determinou uma série de medidas para reorganizar o fluxo de atendimento na rede pública de saúde em Uberlândia. A ação aponta graves deficiências, incluindo a superlotação do HC-UFU causada pelo encaminhamento de pacientes via "vaga zero", que permite transferências mesmo sem vagas disponíveis.
O MPF alega que o município descumpre a pactuação que define o HC-UFU como referência para casos de alta complexidade, encaminhando pacientes para procedimentos que poderiam ser realizados em outros serviços. A decisão judicial exige que o Município de Uberlândia:
- Respeite o perfil de alta complexidade do HC-UFU e pare de encaminhar pacientes fora dessa categoria.
- Estruture um fluxo para receber de volta pacientes encaminhados ao hospital universitário.
- Garanta o funcionamento ininterrupto, 24 horas por dia, dos serviços do hospital municipal.
- Implante uma fila única para cirurgias e procedimentos eletivos.
Para a UFU e o HC-UFU, a Justiça determinou a manutenção de equipes de médicos reguladores 24 horas por dia e colaboração com a gestão municipal para aprimorar protocolos. O Estado de Minas Gerais deve atuar como articulador e fiscalizar os contratos da rede de urgência e emergência.
Posicionamento das Autoridades
Em entrevista ao MG1, o secretário municipal de Saúde, Adenilson Lima, atribuiu a situação a um problema estrutural do sistema público, com cerca de 75% da população de Uberlândia dependendo exclusivamente do SUS. Ele citou medidas como a abertura de novos leitos e a expansão do Hospital Santa Catarina, mas reconheceu a necessidade de diálogo com a Ebserh para dimensionar profissionais e financiar o pronto-socorro.
André Luiz de Oliveira, superintendente do HC-UFU/Ebserh, afirmou que a unidade é o maior prestador público de atendimento na rede de urgência e emergência do SUS na região, mas não o único. "Hoje estamos com cerca de 167% de ocupação na urgência e emergência adulta. Os pacientes precisam ser acomodados da melhor maneira possível. Não é o que o usuário merece, mas é o que conseguimos fazer neste momento", disse. Ele destacou que a solução depende da articulação entre diferentes níveis de gestão da saúde.
A SPDM, responsável pela gestão do Hospital Municipal Dr. Odelmo Leão Carneiro, informou em nota que realiza procedimentos de alta complexidade conforme o contrato e está à disposição para esclarecimentos. A Advocacia-Geral do Estado se manifestará nos autos do processo.
Esta crise evidencia os desafios persistentes na saúde pública, exigindo ações coordenadas para garantir atendimento digno e eficiente à população de Uberlândia.
