Profissionais denunciam pressão por internações na UTI do Hospital Anchieta
Um grave relato de pressão interna emerge do Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga, no Distrito Federal. Profissionais da saúde afirmam ser constantemente coagidos a encaminhar pacientes para a Unidade de Terapia Intensiva, mesmo em casos que não justificariam tal medida. A denúncia ganha contornos ainda mais sombrios diante de um contexto de investigação criminal: três pessoas foram supostamente assassinadas enquanto estavam internadas na UTI da instituição no final de 2025, com três técnicos de enfermagem presos como suspeitos.
Questionamentos sobre a necessidade das internações
As famílias das vítimas levantaram sérias dúvidas sobre os motivos que levaram seus entes queridos à terapia intensiva. Um caso emblemático é o de Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos. Segundo sua filha, Kássia Leão, a paciente apresentava apenas um quadro simples de constipação intestinal.
"Nenhuma alteração no exame de sangue, nenhuma alteração na tomografia. Nada além disso, uma constipação. Ela ia ser medicada e voltava para casa", declarou Kássia, questionando a necessidade da internação na UTI onde sua mãe veio a falecer.
Relatos de pressão e cobrança por metas
Uma investigação da TV Globo apurou que os profissionais do Anchieta se sentem pressionados a manter um número mínimo de internações na UTI. Um médico, que preferiu não se identificar, revelou a atmosfera de coerção dentro do hospital.
"Nós recebemos o tempo todo mensagens de que há vagas disponíveis no serviço de terapia intensiva para mantermos um número de internação. Nós nos sentimos o tempo todo coagidos, pressionados para internar", relatou o profissional.
As cobranças parecem ser sistemáticas. Em mensagens trocadas em um grupo interno do hospital, Sávio César Oliveira Parreira, coordenador da clínica médica do Pronto Socorro do Anchieta, explicitamente solicitou maior atenção aos critérios de UTI.
"Pessoal, vamos atentar aos critérios de UTI, muitos leitos ociosos, se precisar não teremos dificuldades", escreveu o coordenador, em uma comunicação que sugere a existência de uma meta a ser cumprida.
Outros casos de internação questionável
A denúncia não se limita aos casos envolvidos nos assassinatos. Neide Daiane, professora e moradora de Ceilândia, narrou uma experiência similar com seu marido no Hospital Anchieta de sua região. Segundo ela, o paciente apresentava uma infecção urinária e foi encaminhado para a UTI de forma desnecessária.
"Poderia simplesmente passar o medicamento e ser tratado em casa. Ele estava andando, conversando, consciente, só precisava de um medicamento para dor mesmo", afirmou Neide, reforçando o padrão de conduta denunciado.
Posicionamento do hospital e perfil do coordenador
Em nota oficial, a direção do Hospital Anchieta se defendeu das acusações. A instituição afirmou que os encaminhamentos para a UTI "seguem critérios exclusivamente técnicos, definidos pela equipe médica responsável e fundamentados em rigorosos protocolos assistenciais e algoritmos claros, baseados em exames clínicos precisos".
Enquanto isso, informações do Conselho Federal de Medicina revelam que o coordenador Sávio César Oliveira Parreira é médico formado há uma década, com inscrições para atuar em Goiás, Distrito Federal e São Paulo. Na capital federal, ele possui especialização em medicina de emergência.
O caso expõe uma tensão profunda entre a alegação de protocolos rígidos por parte da administração do hospital e os relatos angustiantes de profissionais que se dizem forçados a tomar decisões clínicas sob coação, em um cenário já marcado por uma tragédia criminal que chocou a comunidade do Distrito Federal.



