Ozempic mais barato? Entenda por que queda de patente não deve baixar preço agora
A patente da semaglutida, princípio ativo do famoso medicamento Ozempic, está programada para cair no Brasil em 20 de março. No entanto, a expectativa de consumidores por adquirir a caneta emagrecedora a um custo significativamente reduzido neste mês não deve se concretizar. Uma combinação de fatores regulatórios, industriais e as próprias estratégias da fabricante Novo Nordisk criam um cenário de preços que devem permanecer elevados no curto prazo.
Entraves regulatórios e produção limitada
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não autorizou a produção da semaglutida por laboratórios nacionais. Existem 14 pedidos em análise, mas a agência concederá no máximo três autorizações por semestre, um processo que pode se estender até meados de 2028. A EMS, maior farmacêutica do país e uma das primeiras na fila, projeta que suas canetas cheguem às farmácias apenas no segundo semestre, possivelmente em agosto, após um período de pelo menos 90 dias após a obtenção do registro.
"Um medicamento de menor complexidade poderíamos colocar no mercado em 30 ou 45 dias após a queda de patente, mas este a gente acredita que em menos de 90 dias não é possível", afirma Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS. Atrasos adicionais podem ocorrer devido a desafios logísticos, como a importação de insumos e a distribuição em um país de dimensões continentais.
Descontos obrigatórios são modestos
Outro fator que limita a redução imediata de preços é a categoria dos medicamentos que serão lançados. A maioria dos registros submetidos à Anvisa é para produtos similares, não genéricos. Enquanto os genéricos exigem um desconto mínimo de 35% em relação ao medicamento de referência, os similares permitem um desconto de apenas cerca de 20%. Isso significa que, considerando o preço de tabela atual do Ozempic de R$ 1.299,70, as versões brasileiras poderiam ser vendidas a partir de R$ 1.039,76.
Um estudo do Itaú BBA estima que a queda de preços inicial não deve ultrapassar 30%, com as canetas sendo vendidas por aproximadamente R$ 900. "No começo, a gente assume uma premissa de queda de preço menor, porque são poucos produtos e são similares. As empresas vão tentar segurar o preço", explica Rodrigo Gastim, especialista em consumo do Itaú BBA.
Investimento bilionário e concorrência limitada
A produção das canetas emagrecedoras é complexa e cara. As fábricas exigem investimentos bilionários, com rigorosos controles de esterilidade, monitoramento ambiental e testes de transporte refrigerado. Poucos laboratórios brasileiros possuem essa capacidade. A EMS, por exemplo, investiu R$ 1,2 bilhão em sua planta em Hortolândia (SP).
Além disso, a concorrência nacional será inicialmente baixa. Muitas farmacêuticas brasileiras devem formar parcerias com empresas estrangeiras, principalmente da Índia, para importar ou terceirizar a produção, o que pode incorrer em impostos que comprometem a competitividade. A Novo Nordisk, por sua vez, planeja contra-atacar produzindo localmente em Montes Claros (MG), com um investimento de R$ 6,4 bilhões, para se manter relevante em seu oitavo maior mercado global.
Pressão de novos fármacos e mercado ilegal
O mercado de canetas emagrecedoras já enfrenta pressão competitiva antes mesmo da queda da patente do Ozempic. O Mounjaro (tirzepatida), da Eli Lilly, superou as vendas da semaglutida da Novo Nordisk em janeiro, movimentando R$ 850 milhões contra R$ 453,2 milhões. A evolução dos fármacos é rápida: a liraglutida (geração anterior) permitia perda de até 8% do peso, a semaglutida elevou para cerca de 15%, e a tirzepatida promete até 22,5%.
Adicionalmente, a venda ilegal de canetas, muitas vezes manipuladas em farmácias ou importadas ilegalmente do Paraguai, representa um desafio significativo. A Eli Lilly estima que milhões de canetas ilegais de tirzepatida já possam ter sido vendidas no Brasil, um mercado difícil de quantificar mas que atrai a atenção da Polícia Federal.
Cenário futuro e projeções de crescimento
Apesar das dificuldades, o mercado de canetas emagrecedoras no Brasil apresenta crescimento exponencial. As vendas dobraram em 2025 em relação ao ano anterior, e em janeiro de 2026 houve um aumento de 34% na comparação com a média mensal de 2025. Projeções do Itaú BBA indicam um faturamento de R$ 24,6 bilhões em 2026, podendo chegar a R$ 50,8 bilhões até 2030, impulsionado não apenas pelo tratamento da obesidade, mas também por potenciais usos em outras patologias, como doenças cardiológicas, e pelo interesse estético.
"Temos uma população obesa ou com sobrepeso relevante, mas este não é o único público. Somos o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, então o interesse inclui o uso eventual, de quem quer perder alguns quilos para o verão, por exemplo", complementa Rodrigo Gastim.
Enquanto isso, a Novo Nordisk ainda avalia recorrer judicialmente da decisão que negou a extensão de sua patente, um processo que poderia chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF), embora especialistas considerem improvável uma vitória, dado o impacto potencial em toda a legislação de patentes do país.



