Erro médico grave: mais de 500 casos de objetos esquecidos em cirurgias no Brasil
Uma situação extremamente preocupante vem sendo registrada em hospitais de todo o Brasil: pacientes que passam por procedimentos cirúrgicos e ficam com materiais médicos esquecidos dentro do corpo. Uma reportagem especial do Fantástico trouxe à tona este grave problema de saúde pública, que já afetou centenas de brasileiros nos últimos anos.
Caso fatal em Minas Gerais expõe gravidade do problema
No final de 2025, em Minas Gerais, um homem de 68 anos morreu após ter uma pinça cirúrgica de 14 centímetros esquecida em seu abdômen durante uma operação. Manuel Cardoso, que havia se aposentado após mais de duas décadas trabalhando como gari, passou mal no início de dezembro daquele ano.
Os exames iniciais indicaram uma úlcera gástrica, e a cirurgia foi realizada no Hospital Municipal de João Pinheiro. Dois dias após ser transferido da UTI para a enfermaria, Manuel começou a apresentar sintomas alarmantes: sono excessivo e recusa alimentar.
"Por ter histórico de acidente vascular cerebral em 2023, a equipe médica inicialmente suspeitou de um novo AVC", explica a reportagem. No entanto, uma tomografia revelou a verdadeira causa dos problemas: uma pinça cirúrgica havia sido deixada dentro de seu corpo durante a operação anterior.
Manuel precisou passar por uma nova cirurgia de emergência para retirada do objeto, mas não resistiu. Ele faleceu no dia 24 de dezembro, apenas três dias após completar 68 anos.
"Foi o pior Natal da minha vida. Eu fiquei sem chão", relata Samuel Cardoso Rezende de Brito, filho de Manuel, emocionado ao lembrar da tragédia familiar.
Levantamento nacional revela números alarmantes
Segundo dados do Ministério da Saúde, foram registrados mais de 500 casos de objetos esquecidos em cirurgias desde 2022 em todo o território nacional. Um levantamento abrangente realizado pela Universidade de São Paulo trouxe números ainda mais preocupantes sobre essa realidade.
A pesquisa, que ouviu 2.872 cirurgiões de todo o país, apontou que:
- 43% dos profissionais entrevistados admitiram já ter esquecido algum objeto durante uma cirurgia
- 73% relataram já ter operado pacientes uma ou mais vezes especificamente para retirada de corpos estranhos
- Gazes e compressas são os objetos mais comumente esquecidos durante procedimentos cirúrgicos
"É uma falha que não pode acontecer sob hipótese alguma", afirma com veemência Mauro de Britto Ribeiro, diretor do Conselho Federal de Medicina, sobre os casos de objetos esquecidos.
Protocolos de segurança e medidas preventivas
Diante dessa realidade preocupante, especialistas destacam a importância dos protocolos de cirurgia segura, que foram criados pela Organização Mundial da Saúde em 2009 e adaptados para o Brasil a partir de 2013.
Existe um procedimento padrão que todas as equipes médicas deveriam seguir rigorosamente:
- Todo material cirúrgico deve chegar ao centro cirúrgico em caixas lacradas
- Os itens devem ser contados minuciosamente antes do início da cirurgia
- Nova contagem deve ocorrer antes do cirurgião começar a suturar o paciente
- Uma contagem final é obrigatória ao término do procedimento
- O número de itens que entra na sala precisa ser exatamente igual ao que sai
"O mais importante de tudo isso são todas as etapas que antecedem esse processo. Todo esse treinamento para que as coisas aconteçam da melhor forma possível", ressalta Fabiana Makdissi, cirurgiã oncológica do A.C. Camargo.
Inovações tecnológicas e lições da aviação
Para prevenir esses erros, algumas inovações têm sido implementadas. As gazes e compressas utilizadas em centros cirúrgicos, por exemplo, agora são produzidas com um detalhe crucial: um fio especial que aparece claramente em exames de raio-x.
"Você consegue chamar um raio-x na sala e isso aqui você consegue identificar no paciente", explica a cirurgiã Fabiana Makdissi sobre a tecnologia.
Curiosamente, muitos dos protocolos de segurança adotados na medicina foram inspirados em práticas de outra área onde a precisão é fundamental: a aviação.
"Começou a se estudar o que foi feito na aviação para chegar no grau de segurança que eles têm hoje. Uma das coisas que mais se fazia era aplicação de checklists, com itens para você checar para não ter que depender da memória e da atenção", detalha Lucas Zambon, diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente.
Essa abordagem sistemática, com verificações múltiplas e protocolos rigorosos, tem se mostrado essencial para reduzir erros humanos em ambientes de alta complexidade como as salas de cirurgia.
A situação permanece como um alerta urgente para o sistema de saúde brasileiro, exigindo maior fiscalização, treinamento constante das equipes e adoção rigorosa dos protocolos estabelecidos para garantir a segurança dos pacientes em procedimentos cirúrgicos em todo o país.