O professor, cirurgião e pioneiro em transplantes de fígado Silvano Raia morreu aos 95 anos. Ele revolucionou a medicina ao realizar o primeiro transplante de fígado com doador vivo do mundo em 1988 e, três anos antes, o primeiro com doador falecido. Lúcido e ativo até o fim, o médico deixou um legado inestimável para a ciência brasileira.
Trajetória inovadora
Nascido em 1930, Silvano Mário Attílio Raia formou-se no Reino Unido e trouxe sua bagagem acadêmica para o Brasil. A partir dos anos 1970, empreendeu nas primeiras ressecções regradas de fígado, tornando-se referência no estudo do órgão. Foi professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretor da Faculdade de Medicina entre 1982 e 1986. Criador da Unidade de Fígado do Hospital das Clínicas, formou a maioria dos cirurgiões transplantadores do país.
“Sua atuação foi decisiva para a formação de gerações de médicos e para o avanço da ciência, sempre pautada pela inovação, pelo rigor acadêmico e pelo compromisso com a vida”, afirmou a Faculdade de Medicina da USP em nota.
Atividade contínua e xenotransplante
Raia permanecia ativo na pesquisa. No ano passado, comentou o avanço de pesquisadores chineses que transplantaram um fígado geneticamente modificado em humano. Ele liderava o projeto XenoBR, em parceria com a geneticista Mayana Zatz, focado em xenotransplantes com suínos estéreis. Na semana anterior ao seu falecimento, nasceu o primeiro porco clonado do projeto, após seis anos de tentativas.
“O professor Silvano era um visionário. Quando nos procurou, há seis anos, parecia uma ideia futurística. Ele percebeu a importância de associar cirurgia aos avanços em genética e edição gênica”, relembrou Zatz. “Perdemos um grande cientista, mas seu legado continua.”
Homenagens e legado
A Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) destacou sua dedicação para reduzir o sofrimento de quem espera por órgãos. A presidente da SBH, Leila Beltrão Pereira, afirmou: “A medicina brasileira perde um médico, professor e pesquisador que, aos 95 anos, continuava inspirando gerações.”
O cirurgião ocupava a cadeira 30 da Academia Nacional de Medicina (ANM) desde 1991. O presidente da ANM, Antonio Egidio Nardi, declarou: “Sua energia singular, visão pioneira e capacidade de inspirar gerações permanecerão como legado vivo. Mais que um grande cirurgião, foi exemplo de compromisso com a ciência e com o futuro da medicina brasileira.”



